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Filmes para conhecer a A24

Um pouco de história

A A24 é uma produtora de cinema estadunidense queridinha de muitos cinéfilos, fundada em 20 de agosto de 2012 pelos veteranos em produção e cinema Daniel Katz, David Fenkel e John Hodges. O nome foi inspirado pela Autoestrada A24, localizada na Itália, pela qual Katz estava passando quando decidiu fundar a empresa. O primeiro filme lançado foi “A Glimpse Inside the Mind of Charles Swan III”, de Roman Coppola, em 2013, de forma tímida. Mas o estúdio começou a colher frutos após adquirir os diretos de exibição de “Ex Machina”, “O quarto de Jack” e “A Bruxa” - ou “The VVitch”, para os cults - em 2015. Até 2019, a empresa recebeu um total de 25 nomeações para o Oscar.

Motivação para fazer esta lista

As produções da A24 englobam os mais variados gêneros e temas, como comédia surrealista, ficção científica, terror psicológico, suspense e crime, além de abraçar as causas LGBTQI+. Apesar de diferentes uns dos outros, todos os filmes lançados pela produtora se conectam por sempre mostrarem visões fora da caixa a respeito de vários aspectos da vida e do mundo.


São longas que, numa indústria cada vez mais mecanizada e menos ambiciosa, dificilmente teriam chances e incentivos para estarem nas telonas, mas, ironicamente, a companhia fez sucesso e se consagrou na sétima arte justamente por trazer filmes experimentais e únicos, que quando lançam, sempre causam impacto nas pessoas e são temas de discussão em todas as partes do planeta.


Por isso, o Querido Cinéfilo decidiu listar alguns filmes da produtora. Não é um ranking do melhor para o pior ou vice-versa, além do que, foi evitado colocar dois filmes do mesmo diretor. Será dada a sinopse, seu histórico, um pouco do estilo do filme ou do diretor que o realizou e o porquê que ele deve ser assistido.

Joias Brutas - Benny e Josh Safdie (2020)

Com muitas dívidas acumulando e muita gente para quem deve, um joalheiro de Nova Iorque arrisca tudo com esperança de quitar dívidas e se manter vivo. O filme é polêmico por dois motivos, o primeiro foi o Oscar de 2020, que esnobou a ótima atuação de Adam Sandler como Howard, e o segundo, a linguagem utilizada, que faz um leve flashback para o ano de 2012, utilizando o basquete como veículo de apostas e reprisando jogos que aconteceram na vida real, além do ritmo assustadoramente frenético aliado à trama complexa. Os irmãos Safdie vieram da escola Scorcese dos anos 70, trazendo uma estética urbana e agitada para seus filmes, apimentando a tensão ao criar atmosferas ansiosas com músicas de fundo sutis e crescentes e fotografia poluída, para deixar o espectador roendo as unhas. Se Bom Comportamento já se munia dessas armas para entregar um suspense intenso, Jóias Brutas vai além, nos mergulhando no comportamento compulsivo de Howard, que adora levar vantagem e tem um patológico medo de perder, o que o faz pôr tudo a perder o tempo todo, o que acaba afetando todos à sua volta.


O Farol - Robert Eggers (2019)

Dois faroleiros tentam manter a sanidade enquanto vivem juntos em uma distante e misteriosa ilha em New England durante a década de 1890. Com um iminente longa chamado “The Northman”, é inegável que a expectativa está altíssima, baseando-se no par de filmes que Robert Eggers lançou, A Bruxa e O Farol, ambos excelentes. O estilo dele é descrito por muitos como pós-terror, ou terror parado, de forma condenatória. Os diálogos escassos, com a câmera se movimentando lentamente e paisagens sonoras ajudam a criar o suspense em situações que o filme precisa diminuir o ritmo para crescer de novo, e O Farol faz isso com maestria. Inspirado por clássicos de terror e o surrealismo europeu, The Lighthouse parece ter sido dirigido por um cineasta norueguês ou sueco. O elenco de dois personagens – três atores, e um imaginário – também funciona muito bem. A distribuição de tela entre Robert Pattinson e Willem Dafoe é eficaz e ambos estão ótimos, o primeiro fazendo o papel do subordinado e o outro do patrão, equilibrando bem a luta por poder entre duas personalidades masculinas e o exprimir dos desejos mais primitivos.

Hereditário - Ari Aster (2018)

Uma família em luto é amaldiçoada por ocorrências trágicas e perturbadoras.

O filme de estreia de Ari Aster foi aclamado pelo público e crítica por conta da sua maturidade como estreante no cinema e do estilo alternativo de terror, que foge dos clichês do gênero, como jumpscares e personagens genéricos, para entregar uma trama familiar repleta de reviravoltas e suspense. Ari Aster costuma focar nas relações interpessoais e seus conflitos, mas sempre entregando uma visão mórbida e sufocante para descrevê-las, aproveitando do thriller psicológico e do suspense e por vezes culminado em violência pesada, como mais tarde seria aplicado em Midsommar. Talvez a densidade disso em Hereditário seja ainda maior por englobar um drama familiar e falar do luto logo de imediato, e o que é pior, com a perda da filha mais nova da família e por conta de um engano fatal. O jeito como o longa guia o espectador até o fim e o faz ter medo do que pode se suceder depois é impressionante.

O Quarto de Jack - Lenny Abrahamson (2015)

Mantida em cativeiro dentro de um quarto apertado durante sete anos, uma mulher e seu pequeno filho finalmente se veem livres e o garoto pode experienciar o mundo exterior pela primeira vez na vida. A película foi responsável por dar um Oscar de Melhor Atriz à Brie Larson, que mais tarde se tornaria Capitã Marvel e por ajudar a consagrar a carreira do prodígio Jacob Tremblay, que mais tarde faria August em O Extraordinário. Interessante como alguns filmes da A24 abraçam a estética conhecida como White trash, isto é, pessoas brancas de baixa renda que vivem em subúrbios ou à margem da sociedade, geralmente inseridas em contextos onde a criminalidade e a miséria são altas. O Quarto de Jack usa um pouco desse recurso como pano de fundo à história para dar um ar mais realista. O primeiro ato do filme foca na mãe e seu filho no cativeiro. A trama vai te apresentando a eles e faz com que se crie um laço, para que, no fim do primeiro para o segundo ato, possamos torcer por eles para que consigam fugir, ao passo que a tensão é justamente em cima disso, no melhor estilo “será que agora eles conseguem?”. Quando isso ocorre, a tensão, apesar de precisa, alivia um pouco, mas não totalmente e o foco agora é tanto na mídia tirando proveito da situação como na visão pura e inocente de uma criança em relação a poder finalmente conhecer o mundo do qual ela foi privada a vida toda.

Lady Bird - Greta Gerwing (2017)

Em 2002, uma garota de 17 anos com dotes artísticos cresce e se desenvolve em Sacramento, Califórnia. Logo em sua estreia, a diretora Greta Gerwing já fez certo sucesso e virou um dos nomes femininos da direção mais comentados da atualidade. Além disso, Lady Bird teve como destaque o excelente trabalho de Saoirse Ronan, conhecida por ter um nome de difícil pronúncia e ser considerada uma das melhores atrizes atualmente. Sempre focando em personagens femininas, roteiros mais simples e tato em cultivar tramas sutis e cativantes, o gênero coming-of-age ou crescimento se encaixa muito bem ao descrever o estilo de Greta Gerwing. Com uma onda de filmes visando o crescimento humano surgida na metade da década passada, com filmes como Boyhood, Lady Bird também surfou, mas trazendo a visão de uma menina, o que o fez ganhar destaque.Tudo o que é apresentado na trama, além de ser feito com carinho, também é pé no chão. No mesmo filme, há momentos belos como conversas da menina com a mãe perto do fim e atos inconsequentes da própria protagonista, que, apesar de tudo, ainda é uma pessoa em desenvolvimento.

O Sacrifício do Cervo Sagrado - Yorgos Lanthimos (2017)

Steven, um carismático cirurgião, é forçado a fazer um impensável sacrifício depois que as coisas em sua vida começam a dar errado, quando o comportamento de um adolescente que ele está tomando conta se torna sinistro. Responsável por um estilo bizarro, no melhor sentido da palavra, e calcado em situações inusitadas, o diretor grego Yorgos Lanthimos faz filmes difíceis de serem explicados, mas não impossíveis de serem compreendidos. Ao abordar um tema mais do que citado pela sétima arte, a vingança, o faz utilizando de uma fotografia crescente, lenta e carregada, aliada a uma trilha sonora sinistra que compõe muito bem a cena e sabe aumentar de forma gradativa para culminar em algo bizarro e tenso ao mesmo tempo.

Projeto Flórida - Sean Baker (2017)

Ambientado durante as férias de verão, o filme gira em torno de uma garotinha de seis anos, Moonee, enquanto ela corteja aventuras e travessuras com seus amiguinhos arruaceiros, além de focar na relação com sua rebelde, porém carinhosa mãe, tudo isso às margens do maravilhoso mundo mágico da Disneylândia. Se aproveitando a onda dos filmes de amadurecimento, Projeto Flórida ainda acrescenta o elemento do já citado white trash. Projeto Flórida é realista e cru, por vezes perturbador, como em uma cena de um possível pedófilo, que não é concretizada, mas ao mostrar o olhar do homem às criancinhas já te deixa tenso e com muito asco. Os personagens não são bons nem ruins, podem aquecer seu coração como lhe deixar morrendo de raiva. Mas o mais curioso é o contraste com a Disney World, que fica literalmente do lado do condomínio onde vivem essas pessoas, o primeiro sendo um mundo maravilhoso e glamuroso e o segundo um antro de crianças sem perspectiva e adultos que não são exemplos para jovem nenhum.

Moonlight: Sob a Luz do Luar - Barry Jenkins (2016)

Um jovem afro-americano, tenta entender sua identidade e sexualidade enquanto experimenta as lutas diárias da infância, adolescência e idade adulta. Na edição de 2017 do Oscar, “Moonlight” foi a primeira película do estúdio A24 a vencer na categoria de melhor filme. Segundo o site IndieWire, o filme teve um orçamento de cerca de 1,5 milhão de dólares, menos que um comercial de trinta segundos, que custa por volta de 2,2 milhão. O mais inacreditável nisso é que o diretor conseguiu fazer milagres. Um exemplo é o próprio nome do filme, que vem de uma frase dita por um personagem, que “a pele negra fica azul com a luz do luar”. Moonlight tem outro diferencial, um elenco todo composto por atores negros. Também calcado na onda coming-of-age, a qual a A24 também abraçou, temos três atores diferentes fazendo o papel do Chiron em fases distintas da vida e todos dando a impressão de serem a mesma pessoa. A trama mostra a vida do rapaz passando pela câmera de forma sutil, bonita, sofrida, reflexiva e com um dinâmico e surpreendente ritmo compactado em duas horas. Além disso, é considerado por muitos o melhor longa da década passada e uma das obras-primas produzidas pela A24.

Mid90s - Jonah Hill (2018)

Stevie é um garoto de treze anos vivendo em uma Los Angeles dos anos 90, que passa seu verão alternando entre sua família problemática e um novo grupo de amigos o qual ele encontra em uma loja de Skate. A estreia do carismático Jonah Hill atrás das câmeras deu certo. É uma linda e sincera homenagem aos anos 90 e a nostalgia. Com uma câmera 4x3, parece literalmente uma fita antiga filmada nesta década que foi achada em uma gaveta, o que fica ainda mais acentuado com a trilha sonora, o figurino dos personagens e toda a ambientação da película, além de evocar saudade naqueles que viveram tais tempos. Sem dizer com precisão a data da obra, fica para o público juntar as peças e sugerir em que ano passa.

Clímax - Gaspar Noé (2018)

Um grupo de dançarinos franceses se reúne em um prédio escolar vazio e distante da cidade para uma noite de ensaios durante o inverno. A celebração noturna se transforma em um pesadelo alucinante quando eles descobrem que a sangria (bebida quente feita à base de vinho) está misturada com LSD. Conhecido por fazer filmes que exploram o lado mais podre do ser humano, Gaspar Noé é sempre muito afiado tanto com a caneta com a qual escreve os roteiros como com a câmera que os filma. Temas como estupro, pedofilia, aborto, traição e perversões sexuais estão entre os mais comuns em sua obra, sempre abordados de forma fria e com o objetivo de causar asco e choque em quem assiste. Em Clímax, ele resolve falar sobre viagens com drogas alucinógenas. Também se aproveitando da estética white trash, traz um ambiente sujo aliado a embriaguez dos personagens para criar cenários excessivamente coloridos, sufocantes, desagradáveis, literalmente construindo uma bad trip – isto é, quando você usa droga e mesma não lhe causa boas sensações - em forma de filme.

First Cow - Kelly Reichardt (2020)

Um habilidoso cozinheiro viaja para o oeste e se junta a um grupo de caçadores em Oregon, onde ele tem uma conexão verdadeira apenas com um imigrante chinês que também visa enriquecer. Logo, os dois colaboram para um negócio bem-sucedido, que envolve explorar o leite da única vaca do povoado. Quem disse que a pandemia faria com que a produtora parasse de soltar filmes? Não só lançaram um ótimo filme para acrescentar ainda mais em seu ótimo catálogo como foi a melhor película desta diretora, segundo muitos. Mesmo que você não goste de filmes dramáticos que aparentemente não tem história, este filme começa de forma lenta mas o roteiro é esperto o suficiente para pegar na mão do público e conduzi-lo a uma história que fica interessante aos poucos e logo se enche de reviravoltas e flerta com o suspense.

Um Cadáver Para Sobreviver - Dan Kwan & Daniel Scheinert (2016)

Um homem desamparado chega a uma ilha deserta e se torna amigo de um corpo morto e juntos eles embarcam em uma jornada surreal a fim de voltar para casa.

Daniel Radcliffe consegue sair um pouco do estigma de Harry Potter neste longa e nos faz esquecer que um dia ele foi o bruxo de Hogwarts. O que surpreende ainda mais é que maior parte do tempo de tela é só para ele. Um dos filmes menos conhecidos da produtora e um dos mais intrigantes, Swiss Army Man, título original, adora brincar com a imaginação do público, alternando em momentos que estão tanto dentro como fora da mente do personagem, sem você fazer muita distinção entre ambos, mas que são interessantes temas para um debate pós-filme, o que vai alternando entre a aventura que faz com que a trama não se torne cansativa e uma dose de humor ainda é acrescentada no caldeirão.

Locke - Steven Knight (2013)

Ivan Locke, um dedicado e bem-sucedido homem de família, recebe um telefonema às vésperas do dia mais desafiador de sua carreira, o que desencadeia uma série de eventos que confrontam sua cuidadosa existência. Infelizmente este filme também é um dos mais subestimados do estúdio, o que é incompreensível. Tom Hardy prova que é um excelente ator neste longa, onde sozinho consegue conduzir a trama toda e acertar o tom do personagem tanto antes como depois de receber uma notícia que mudaria sua vida. A A24 parece gostar de filmes onde o elenco é pequeno e a trama se baseie em um único ou poucos ambientes e seja guiada por pouquíssimos personagens. Ou praticamente um só, como é o caso de Locke. A película nunca fica chata, mesmo que passe toda dentro de um carro com o personagem principal basicamente apenas falando ao telefone com as pessoas de seu ciclo social, ao mesmo tempo que aborda os mais variados temas como relação familiar, sucesso no trabalho, pena, paternidade, entre outros.

Sombras da Vida - David Lowery (2017)

Nesta singular exploração de legado, amor, perda e da enormidade da existência, um fantasma recentemente falecido retorna para sua casa para tentar se reconectar com sua esposa. Também navegante da onda do que muitos chamam de pós-terror, A Ghost Story é uma história tão bonita como assustadora. Assim como Anos 90, também foi filmado com uma câmera 4x3, daquelas com imagem quadrada, para dar um ar mais intimista à trama. A atmosfera de luto logo no começo faz com que se crie um laço com a personagem interpretada pela Rooney Mara, principalmente naquela sutil, mas poderosa cena onde come uma torta enviada por seu recém-falecido marido. No segundo ato, o filme foca no fantasma perambulando, que não é necessariamente aterrorizante, mas tenso e assustador o suficiente para entrar em seus sonhos a noite, o que é meio contraditório, já que as vezes o espírito coberto por um lençol branco com dois furos parece até simpático algumas vezes.


Fé Corrompida - Paul Schrader (2018)

Um ministro de uma pequena congregação no interior do estado de Nova Iorque luta contra o desespero crescente causado pela tragédia, preocupações mundanas e um passado atormentado. Quando lançado, muitas pessoas não puderam deixar de comparar First Reformed ao Taxi Driver. Justo, principalmente pela solidão e o desamparo que são abraçadas pelo protagonista e pela crescente falta de empatia que vai surgindo nele. Citando o tradicionalismo, por exemplo no título original, que denota o período que a Igreja foi reformada, o contraste com a quebra do padre com o tradicionalismo, é mais um caso de filme da A24 que trabalha com camadas e antíteses.

Conclusão

Como pôde ver, o estúdio A24 lançou verdadeiras obras de arte do cinema que valem a pena ser conferidas por todo mundo em qualquer momento da vida. O mais incrível de tudo é que duas pessoas diferentes podem ter visto o mesmo filme e terem tido visões distintas e esse é um luxo o qual está produtora nos proporciona. Por mais que seja uma empresa nova no ramo, com certeza é uma das mais importantes e instigantes da história recente do cinema.


Escrito por André Germano

Fontes:

• https://shifter.sapo.pt/2019/12/melhores-filmes-a24/

•https://rollingstone.uol.com.br/media/stories/6-filmes-para-conhecer-produtora-do-futuro-a24/

• https://pt.wikipedia.org/wiki/A24_(produtora)

• https://www.imdb.com/search/title/?companies=co0390816&start=151&ref_=adv_nxt

https://www.indiewire.com/2017/03/moonlight-wins-top-10-lowest-budget-best-picture-winners-oscar-history-1201788405/

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