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Crítica: Pig - Michael Sarnoski (2021)

Um eremita que vive sozinho em uma cabana no meio do mato em Oregon e caça trufas para sobreviver tem sua porca sequestrada e se vê obrigado a retornar ao seu passado em Portland atrás dela.

Pig é o primeiro longa de Michael Sarnoski, lançado esse ano. Também classificado como “John Wick que poderia ser lançado pela A24”, é um filme de drama, estrelado por Nicolas Cage, em um dos melhores papéis, para muitos o melhor, de toda sua carreira. O rótulo de John Wick da A24 é errôneo por duas razões: uma, porque o longa não é de ação e segundo, tampouco é da A24, a comparação termina só no fato de que ambas histórias têm como ponto de partida o dano que seus protagonistas sofrem com um animal o qual são muito apegados, porque, diferente do filme estrelado por Keanu Reeves, Pig não é necessariamente sobre vingança.


O filme começa girando em torno de Rob, um homem que vive isolado da sociedade em companhia de sua amada porca, uma relação muito pura e genuína, o que gera empatia com o espectador logo de cara, além do que, a mesma é fonte de renda dele, o ajudando na procura de trufas que são vendidas em troca de comida e mantimentos. Os primeiros quinze minutos fazem o público crer que a história se trata de um campestre drama rotineiro no estilo” O Cavalo de Turin”, mas logo vem a reviravolta.

Se de cara criamos empatia pela simpática porquinha e aprendemos sobre o como o protagonista tem apenas ela como sua fiel companhia, logo vem a cena do sequestro do animal, que, pelos motivos citados, passa a ter mais impacto, além do mistério que gera: Quem roubou o bicho? Porque fez isso? Como fez isso? A partir daí, Rob sai em busca dela com Amir, personagem de Alex Wolff, e quem lhe fornece os itens em troca das trufas.


Nesse passeio, descobrimos que o dono da porca foi um respeitável chefe de cozinha, mas não são revelados detalhes suficientes sobre esse passado, o que houve, o que o fez chegar até onde está, como era a relação entre Rob e o pai de Amir. Algumas perguntas são respondidas, outras surgem, mas o filme escolhe deixar certas lacunas abertas, porque, afinal de contas, nem tudo importa, o longa é mais um universo a ser degustado e sentido do que esclarecido, como é mostrado pela economia de trilha sonora para colaborar com a tensão, foco em conjuntos de cenas de diálogos mais reveladores que esclarecedores, a não preocupação em uma história mastigada, fotografia escura e apresentação de personagens que vão abrindo cada vez mais pontas, fazendo com que o foco da, entre aspas, pergunta principal sobre a porca perca um pouco os holofotes para dar espaço a outros assuntos, o que pode desagradar uma parte do público enquanto pode deixar a outra ainda mais submersa nesse mundo misterioso.

De fato, a atuação brilhante de Cage contribui para que fiquemos encantados com o que há por trás desse personagem tão incógnito. Com isso, a película vai aos poucos revelando detalhes sobre ele e as pessoas à sua volta, mas também contando com a atenção do público ao que está sendo mostrado, até porque Pig também é muito calcado nos diálogos, nos dando pistas através deles e do ambiente, com detalhes reveladores aparecendo de forma lenta e gradativa, lembrando até mesmo os filmes de Michael Haneke, que pouco se importam com dar explicação para tudo e esquecendo a ideia de ponto principal da história.


O longa ilude a plateia, propondo uma diversidade de gêneros e focos narrativos e logo mudando, por exemplo, há uma cena no início que lembra um road movie, dando a impressão de que estamos a presenciar uma busca quase aventurada, o que é cortada por outra cena, mais tensa, que parece uma iminente briga fisicamente visceral, e que o filme agora será calcado em busca por vingança e ação, mas diferente disso, o peso aqui é simbólico e de novo, não é nada daquilo que pensamos, o que para alguns pode parecer uma mudança brusca no tom da narrativa, para outros, expectativa demais que nós mesmos alimentamos sobre o filme, quiçá despertada por ele mesmo, nos propondo tanta coisa ao mesmo tempo.


Pig te confunde à princípio, é difícil saber do que se trata, se é sobre um homem solitário, sua porca, seu passado, seu parceiro de negócios, um acerto de contas, ou tudo isso junto, porque, no fim das contas, é uma experiência que exige paciência e que o espectador sinta mais do que interprete.


Escrito por André Germano


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