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Crítica: Druk - Thomas Vinterberg (2020)

*Aviso: apesar da tese convincentemente vendida pelo filme e pelos costumes do mercado de trabalho das décadas de 50 e 60, esse texto não foi escrito sob o efeito de álcool.


Para começar a traçar o panorama de Druk – o título já diz tudo – precisa-se de um reposicionamento de perspectiva: vemos Martin, interpretado por Mads Mikkelsen, em primeiro plano, ele está decidido sobre sair da sala, o diálogo deixa claro que sua agenda o tem reservado para outro lugar, então perto da porta nos olhos dele brilha a dúvida, o quadro fecha sutilmente, a saída vai escapando, ele olha para o copo que não enxergamos, mas sabemos que está lá, há um convite pairando no ar, pelo período que se estende o plano sentimos o pesar da decisão, ele vai ou ele fica?

Druk, dirigido por Thomas Vinterberg, é uma experiência emocional sobre a vida estudando sua mediocridade e o que fazemos para tão devota e desesperadamente contorná-la tentando nos reconectar com o “eu de antes”, despojado, animado e excitante. O filme acompanha a trajetória de quatro amigos professores de história, psicologia, música e educação física em uma “crise de meia idade” engatilhada pelas suas relações familiares – casamento, filhos, desejo de um relacionamento – e profissionais – desestimulados pelo retorno dos alunos, pela falta de conexão com esse ambiente.


Buscando uma forma de alterar a queda livre numa espiral de mesmice desinteresse, eles decidem testar a teoria do psiquiatra Finn Skårderud que diz que os humanos possuem um déficit de 0,05% de teor alcóolico no sangue e que o consumo de algumas doses por dia é capaz de aumentar o rendimento do homem em vários âmbitos.

O longa é dividido em capítulos mais ou menos delineados conforme o estudo dos quatro avança, alterando-se conforme eles experienciam o uso do álcool em seu cotidiano e como este é afetado. Essa marcação é feita tanto por cartelas pretas com algumas inscrições: medições de nível de álcool no sangue, mensagens trocadas pelo celular, anotações científicas sobre o estudo em desenvolvimento que tornam o ato de assisti-los algo científico; quanto pelo movimento dos planos que ora são sóbrios principalmente na primeira parte do filme, ora tornam-se menos estáveis, mais enérgicos quando eles bebem.


A cereja do bolo, contudo, está nos cirúrgicos closes das expressões espantosamente precisas e orgânicas dos protagonistas com destaque especial para Mikkelsen que inclusive é capaz de transmitir tremenda naturalidade para cenas de choro espontâneo em frente aos companheiros, sem mesclar sentimentos de vergonha permitindo assim a passagem para o puro transbordar do excesso de sentimento, de álcool, de vida.

Os personagens de Lars Ranthe – Peter – e de Thomas Bo Larsen – Tommy – também abrem espaço para as camadas desses professores, as diferentes pessoas que são e nas quais se transformam através da interação com os alunos, seus legados para a posteridade e, no caso de Tommy, com seu cachorro, expondo uma veia empática de Druk que não precisa vir à tona, mas que pulsa pelas suas quase duas horas.


Nikolaj - Magnus Millang – apesar de ser quem introduz a tese ao grupo tem a vida pessoal mais exposta do que explorada, ele não passa pela mesma transformação dos outros que envolve conectar-se com aqueles que o rodeiam o que da mesma forma que o deixa mais raso também demonstra o quanto ele se envolve na dependência, mostrando o cansaço e a falta de afeto consequente. Mas independentemente dessas individualidades, a química entre o quarteto é algo especial que funciona como o ligamento essencial para a conexão com cada um em particular, somos convencidos dessa amizade e exatamente por isso é possível compreender suas nuances.


Outra faceta de Druk é que ele aborda uma questão inerentemente cultural: o papel da bebida na sociedade dinamarquesa. Entre os países escandinavos, a Dinamarca possui um consumo de álcool mais elevado do que a média – cerca de 9.1 litros de álcool puro anualmente por adulto enquanto os demais são por volta dos 8.9 litros de acordo com relatório da OECD de 2017. Segundo o artigo “The number of persons with alcohol problems in the Danish population” (tradução: O número de pessoas com problemas com álcool na população dinamarquesa), 20% da população é “bebedor pesado” e 14% já usaram de modo prejudicial.


Entre os diálogos do filme, comenta-se sobre essa realidade, além de também retratar como os protagonistas lidam com seu próprio experimento, comentando em várias ocasiões sobre pessoas talentosas e seus históricos com o consumo de bebidas alcóolicas como uma forma de autoconforto e estímulo.



Tudo isso nos conduz até aqui, por último e mais importante: os minutos finais são de tirar o fôlego. Para aproveitá-los devemos voltar ao início quando somos apresentados à competição de corrida no lago onde times de adolescentes correm ao redor da água levando engradados de cerveja que devem ser bebidos durante a prova. Esse é um retrato da juventude, o apego ao momento e sua comemoração, um constante jubilo pelas experiências. Referências a essa sequência vão e vem ao longo de Druk, principalmente quando os amigos bebem e saem pela noite, criando uma aura de união demonstrada fisicamente – os corpos que se enroscam constantemente.


Assim, o epílogo revive o começo em outra idade, ele conforta quando mostra que há uma harmonia até mesmo quando nos deixa confusos se o melhor de fato irá acontecer. A trilha sonora nessa cena final composta por What a Life performada pela banda Scarlet Pleasure pontua perfeitamente o momento com o ritmo musical que tem os estudantes como público alvo e que consegue capturar Martin expandindo seus sentimentos para o som similar ao que ocorre em Azul é a cor mais quente no aniversário de Adèle com I follow rivers de Lykke Li.

Druk é, portanto, um pincelar honesto sobre o espectro do alcoolismo, não tenta dissuadir o espectador a cegar-se para a sedução da bebida e o que a rodeia como também não permite que suas consequências passem em branco. Não se trata de 8 ou 80, é uma onda que oscila, ora alta ora baixa tal qual a vida de Martin e de todos. A cadência mantida ao longo do filme é inebriante, alterando-se entre o parado e o frenético na edição, é uma festa imprevisível para as “ideias de bêbado” e seus efeitos. Simultaneamente, o longa sobreleva a si mesmo quando além de tratar da dependência traz sensorialmente a caça pela vitalidade, sua preciosidade e o tempo perdido.


Escrito por Giovana Pedrilho



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