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Crítica: Soul - Pete Docter (2020)

"Você nunca será feliz se continuar procurando em que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida." - Albert Camus (filósofo absurdista franco-argelino)


Eles estão de volta! Depois de Divertida Mente, de 2015, a Pixar Animation Studios parecia ter atingido alguma espécie de “ápice” imaginário do que seria fazer uma boa animação tratando de forma lúdica temas extremamente complexos do que é ser humano. Era aparente que o estúdio havia caído em um buraco de sucessivos fracassos e continuações pouco inspiradas, evidentemente que seria praticamente impossível superar o filme de 2015. Nós estávamos errados, ela não só deu conta de ultrapassar essa barreira como o fez de forma cheia de alma e profundidade sobre um dos assuntos mais capciosos para uma animação infantil. Afinal, qual é o tema mais assustador para nós, meros seres de carne e osso, do que a natureza e o sentido da nossa própria vida e morte?

Sinopse: “Na história de Soul, Joe Gardner é um músico que, após um acidente, se vê de volta ao estado de alma, justamente no “You Seminar”, lugar em que as almas são formadas e recebem personalidades antes de serem enviadas aos corpos humanos. A Pixar Animation Studios nos leva a uma jornada pelas ruas da cidade de Nova York e aos reinos cósmicos para descobrir respostas às perguntas mais importantes da vida.”


É engraçado como alguns filmes parecem que foram feitos para certos momentos da vida e da história. Em um momento em que todo o planeta foi forçado a se fechar para o mundo em suas casas, propiciando vários questionamentos sobre como se estava levando a vida anteriormente e o que realmente importa no dia a dia, esse filme cai como uma bomba para jogar na cara do espectador que ele estava errado sobre tudo isso até então. (Clássico da Pixar… aquela que a gente sente falta às vezes.)

Quando um filme fala sobre paixão, é muito fácil que se caia em clichês como os de talento vs. persistência, propósito vs. vontade, podemos aqui citar qualquer filme biográfico de qualquer artista que teve grande notoriedade. Soul nos apresenta Joe Gardner, um pianista e professor de música apaixonado pelo que faz, mesmo que ele tenha zero sucesso com isso. A interpretação de Jamie Foxx nos traz um personagem extremamente carismático e empolgado, com o qual é muito fácil criar empatia. A expressividade de Foxx, que eu até então desconhecia, foi uma surpresa muito boa.


Para um filme que usa um gênero musical como o Jazz, não teria local mais apropriado para a história se passar. A Nova York criada pelos animadores de Soul é cheia de vida, é vibrante, apressada e bizarramente imersiva. A verossimilhança dos metrôs, becos, estações, bares e avenidas chega a ser assustadora para quem conhece a cidade pessoalmente. A cidade se torna, cada vez que aparece, um personagem atuante da narrativa. Toda a trama é acompanhada do que é para mim um dos melhores compositores de trilha sonora ativos hoje em dia, Trent Reznor acompanhado de Atticus Ross, um companheiro de Nine Inch Nails. As cenas “cósmicas” ganham mais uma camada de potência com as sintetizadores de Reznor, além é claro de todas as incursões do Jazz presentes no filme, que por sinal são cheias de vida e fazem jus ao gênero, um agradinho cedido pelo talentoso Jon Batiste.

A premissa é simplesmente genial, brincar com destino, vida, morte, propósito e alma já é difícil em filmes adultos, em filmes “infantis” isso triplica. Seria de extrema irresponsabilidade por parte do estúdio jogar esses assuntos em tela e esperar que os pais tentem resolver em casa as caraminholas nas cabeças dos filhos. O que é visto aqui é uma brincadeira lúdica e existencialista de morto-vivo que funciona muito bem para o público infantil.


O filme deixa o espectador mais velho esperando para ver em todos os momentos com qual conceito da existência o filme vai debater em seguida. São conceitos que realmente são confusos para todos, mas eles tentam apresentar uma explicação, mesmo que não definitiva ou rotulada, que é plausível e divertida. A busca pelo sentido da vida é facilmente distorcida com moralidades filosóficas dogmáticas ou espiritualizadas. De forma corajosa, o filme busca na verdade um outro caminho, muito mais pé no chão filosoficamente, e também muito relacionado com a citação que achei apropriada para o início do texto.

Soul, para além do humor levemente ácido que normalmente traz algo para um público mais velho, é uma divertida aventura cheia de mecânicas de funcionamento de universo que podem gerar várias discussões entre pessoas de várias idades, pois nos toca intimamente como espécie. O filme para além da temática é tecnicamente refrescante, interpretado de forma expressiva e elaborada, mas acima de tudo é um filme que em vários aspectos, com o perdão do trocadilho, é cheio de alma.

Muitas vezes nos vemos perdidos perante a incessante busca por uma felicidade plena, gigantesca, cintilante e colorida que nos é vendida na internet, na mídia, nos livros de autoajuda e na cultura em geral. Quando olhamos para trás percebemos tudo o que deixamos passar despercebido, pois essa busca é traiçoeira. Ela cega e anestesia as sensações para o que realmente importa, as pequenas felicidades e prazeres da vida. Acho que esse filme tem tudo para abrir um pouco a mente daqueles que ainda estão se sentindo perdidos nesse mundão. Para aqueles que decidirem tentar, eu lhes digo boa viagem.


Escrito por: Gabriel Pinheiro


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