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A Psique e a Montagem

No decorrer da história do cinema, sua projeção de aprimoramento de linguagem, destaca-se, na década de 20 do século XX, o estudo sobre a montagem protagonizado por Sergei Eisenstein (Encouraçado Potemkin; Outubro etc.), que fala em A Forma do Filme sobre a influência das escolhas de edição no psicológico do espectador, analisando como cortes e efeitos interferem no sentido da metragem e, assim, na percepção sobre ela.

Posteriormente, a importância da construção narrativa para além do roteiro e da decupagem foi sendo explorada. O diálogo não era capaz de criar profundidade nos personagens quando estava sozinho, era necessário vinculá-lo a outros mecanismos, assim passa-se a explorar efeitos imagéticos como as câmeras lenta e rápida, sequência de muitos cortes em uma única cena ou o prolongamento dela. Isso é notado, por exemplo, na obra de Maya Deren. Em At Land (1944) as elipses, descontinuidade de cenário e as ações que constantemente se alteram criam um ambiente místico para discutir o eu feminino.


No ocidente americano, o cinema buscou estabelecer uma narrativa realista que possa ser vista sem grandes choques e estranhamentos, dando ao espectador o conforto de assistir algo parecido com sua própria vida - quanto à linguagem, não à história -, por isso optou-se por uma montagem menos intrusiva o que vem mudando nas últimas décadas.


Ainda há realismo, mas adiciona-se interferências como em Infiltrados na Klan (2018) de Spike Lee que constantemente quebra com a montagem padronizada ao configurar nos personagens movimentos antinaturais como na cena final do corredor quando Patrice e Ron o percorrem sem andar, cada vez mais próximos da cruz, transportando-se de um ambiente a outro.

Outro exemplo é Manchester by the sea (2017) de Kenneth Lonergan que conta a história de Lee Chandler (Casey Affleck), zelador de condomínio cuja rotina altera-se com a morte do irmão mais velho e a repentina guarda do sobrinho. A metragem, portanto, dedilha o consciente e subconsciente do protagonista, criando um tom melancólico, monótono, por vezes engessado de acordo com a resistência de Lee a voltar a sua cidade natal. As lembranças que constantemente perpassam a mente dele surgem como flashes que ocorrem no seu próprio tempo mais lento.


Há ainda uma sequência que se destaca nesse quesito, a da delegacia, nela a imagem é ansiosa, ao mesmo tempo em que tenta manter sua monotonia, desprendendo-se num ato fatídico: aqui não há lentidão, pelo contrário, os cortes são rápidos – diferente de todo o resto do filme - e as ações desmedidas que apontam para o protagonista confuso, desesperado, exatamente como a montagem. Esse momento difere de forma positiva, apresenta, de forma mais explícita, a influência do psicológico de Lee: estamos vendo sua perspectiva, sua mente, é sua melancolia que acompanhamos.

Assim vê-se que as produções atuais americanas ainda são realistas, porém cedem espaço para fusões próprias do cinema, ou seja, essa fluidez entre o palpável e o abstrato presente em Manchester by the sea está presente em diversas produções contemporâneas a essa.


Escrito por Giovana Pedrilho

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