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Semana ABC 2019 - Associação Brasileira de Cinematografia

Desde 2002, a Semana ABC de Cinematografia promove conferências, painéis e debates, que reúnem personalidades de diversas áreas do setor, do Brasil e do exterior, além de outros profissionais do audiovisual, estudantes de cinema e demais interessados. O site Querido Cinéfilo esteve presente no evento em São Paulo. (Fonte)

Foto: Site da ABC

Os tempos são sombrios para os realizadores: o cinema nacional está sendo sucateado por medidas governamentais que marginalizam a cultura brasileira, seja, por exemplo, através da diminuição do teto de arrecadação para projetos cinematográficos - mesmo a indústria interna já não sendo capaz de se autossustentar – ou pelo descaso com a história do país que forja seu presente e futuro em uma excelente encarnação do conceito alienante do político J.B. da Silva de Bandido da Luz Vermelha de Rogério Sganzerla ao decretar que a cultura serve para mostrar ao turista, destituindo o brasileiro da construção do Brasil.


Diante desse cenário conturbado é realizada a Semana ABC 2019, na Cinemateca Brasileira – tombada desde 1985 - na Vila Mariana em São Paulo a fim de resgatar e preservar um patrimônio essencialmente popular: a memória do povo diante de seus satélites culturais.


Além de sediar tal encontro, nesse espaço, ao longo do ano, também ocorrem oficinas referentes à área audiovisual cuja programação pode ser consultada no site da ABCine.

Fotos: Henrique Fappi

O evento tem entrada franca, contando com a presença de personalidades como Affonso Beato e Walter Carvalho, palestras de profissionais da área sobre temas que vão desde a direção de arte até “como melhorar o ensino através do som-imagem”, tendo também diversos stands que introduzem o visitante na órbita mais técnica do audiovisual, tornando palpáveis as respostas para a questão “como um filme é feito?”.


No salão ficam dispostas as exposições de empresas como Zeiss, Panasonic e Canon, sendo possível conhecer algumas técnicas de iluminação e manejar as filmadoras de cada expositor, algumas das quais acabadas de ingressar no mercado.

Fotos: Henrique Fappi

No gramado é possível conhecer os métodos de filmagem de cenas externas com a DiskFilms e EliteCam, com carros equipados com gruas e equipamentos de fotografia para difusão de luz. Além disso, é possível conhecer locadoras e ter uma experiência imersiva de realidade virtual disponibilizada pela empresa Árvore.


Apesar do tempo chuvoso na capital, formou-se fila na entrada no segundo dia com visitantes ansiosos para assistir às palestras “OLHAR, VER E GRAVAR: ‘Fundamentos: Percepção e Cognição Visual’” com Carlos Ebert - responsável pela fotografia de Bandido da Luz Vermelha - e “Mulheres na cinematografia”, ambas com ingressos esgotados minutos após o início de sua distribuição, deixando o salão dos stands repleto de cadeiras onde sentavam visitantes com rádios para ouvir a palestra que era vista por uma projeção.

Fotos: Henrique Fappi

OLHAR, VER E GRAVAR: “Fundamentos: Percepção e Cognição Visual”

Carlos Ebert discorreu sobre questões de perspectiva como o uso de máscara criando a atração da atenção do espectador para seu exterior; além da importância do desrespeito ao cânone no sentido de desprendimento e experimentação pontuando que “tudo desconhecido ele [espectador] vai se desinteressar, se fizer só o conhecido, ele vai se desinteressar” argumentando que deveria haver um equilíbrio de técnicas fotográficas a fim de transmitir a linguagem através da metáfora da luz.


Lu Bueno – diretora de arte e designer - apresentou a abertura de Cidadão Kane propondo um estudo sobre como o “movimento sempre traz sensação de credibilidade para a imagem”, reforçando a ideia de passagem do tempo da mansão apenas com a fusão de paisagens isoladamente estáticas. Ela também repassou por conceitos de sintaxe visual, dizendo que “se ninguém entende o que você [realizador] fez, você não foi claro no que quis dizer”. Concluindo que, para ela, é importante a percepção acerca do que a metragem deseja transmitir mesmo que esse significado não seja escancarado, uma vez que, em sua opinião “temos a ideia de que conseguimos ver. Nós não conseguimos ver, só conseguimos olhar”, rumando, dessa forma, para a ideia de treinamento do olhar sobre o filme, alcançando uma educação visual.


Mulheres na Cinematografia

Participaram da mesa sobre mulheres no ramo cinematográfico Adriana Bernal – Presidente da Asociación Directores Fotografia Colômbia -, Julia Equi, Julia Zakia, Nuna e Janice D´Ávila, quatro diretoras de Fotografia, além da presença do coletivo DAFB (Diretoras de Fotografia do Brasil).


Para abrir o debate, foram passados trechos do que de fato é ser mulher, fotografados por diretoras, em contraponto aquilo que é tipicamente associado ao feminino. Há a colocação de movimentos de dança, mostrando cada atriz em seu ritmo, porém de encontro a algo maior: um tom feminino.


Janice D’Ávila cita como inspiração para a conversa, o poema de Manoel de Barros “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”, parafraseando: “Imagens são palavras que nos faltam”, logo em seguida expondo o primeiro tópico da noite: a existência de um olhar feminino. Equi e Bernal dizem que não acreditam, essencialmente, em uma diferença entre a maneira como homens e mulheres fotografam o mundo, sendo que essa afirmação de existência costuma ser usada para não contratar fotógrafas para filmes que supostamente pedem por uma “visão masculina”. Apesar disso, é acordado, entre todas, que há uma grande discrepância entre o modo como são retratadas cenas de nu, sexo, estupro e aborto interpretadas por atrizes quando outra mulher as capta.


Nuna se manifesta apontando que “os filmes são, em sua maioria, para agradar os homens”, citando poucos exemplos em que temas como sexo lésbico são abordados sem exageros pornográficos e sim buscam pincelar a realidade desse toque como ocorre em “A Criada” de Park Chan-wook. Ela ainda comenta a influência da pornografia na indução dos jovens a ver a figura feminina de um jeito completamente servil, dependente. Assim, ela diz que, diante desse cenário predatório em que a transmissão das mensagens audiovisuais passa por filtros masculinos, “a vantagem de ser independente é a nossa autonomia”.


Diante da menção de machismo no set, dificuldade de contratação como se houvesse um muro invisível a partir de determinado orçamento acima do qual é incomum a presença de fotógrafas, Bernal proclama “quiero ser conocida porque soy muy buena fotógrafa, pero no la mejor fotógrafa mujer”.


A mesa finaliza sob aplausos e a crescente expectativa de união feminina para superação de barreiras milenares, principalmente em uma indústria majoritariamente masculina.


O terceiro dia da Semana ABC - o último para o público, sendo o que antecede o a entrega do Prêmio ABC – foi aberto com a discussão sobre a educação audiovisual, visando discorrer sobre o não aproveitamento do cinema enquanto material educativo.


Desponta, nesse sentido, a fala de Pryscilla Bettin, professora de montagem no Centro Universitário Senac, a qual explora a teoria da comunicação ressaltando a capacidade manipuladora da imagem sobre um público alienado a ela, propondo olhar para o potencial educativo do cinema de forma edificante, dizendo que ele deve servir também para um processo de transformação pessoal, ensinando ao espectador a assimilar uma obra não realista para, por exemplo, auxiliar na percepção da parcialidade, permitindo a aproximação do cinema político – este que, por sua vez, não é inerentemente panfletário.


Como se em continuação ao discurso inaugural, a primeira masterclass da programação continua a discussão sobre a realização do filme para além do meramente estético, interligando o particular ao propósito geral contido no roteiro.


MASTERCLASS JEANNINE OPPEWALL: “Como Transformo Ideias em Direção de Arte nos Filmes”

Indicada quatro vezes ao Oscar por seu trabalho na direção de arte dos filmes LA Confidential, Pleasentville, Seabiscuit e The Good Shepherd, Jeannine Oppewall simpaticamente oferece à plateia parte da sua experiência como production designer.


Começando do princípio, Oppewall comenta sua maneira de desenvolver o projeto a partir do roteiro de modo muito imersivo. Para ela, é de extrema importância compreender, além daquilo que está escrito: o sentimento que a história desperta nela mesma, explorando as nuances das sensações para então construir a identidade visual. Ela diz: “Every character I ever create is apart of my memory, of my vision, of my knowledge of the story, but there’s a part of the unknown” e é justamente essa última parte que deve ser descoberta e desdobrada.


A arte funciona como uma metáfora visual para o que está acontecendo, mas está além do diálogo. Oppewall lembra, nesse sentido, de sua participação em Snow falling on cedar o qual se passa em 1950, numa comunidade pesqueira do Norte do Pacífico, onde um pescador é encontrado morto induzindo a vila a fomentar o sentimento de desconfiança pelos imigrantes asiáticos moradores da região quando um deles é levado à corte como culpado pelo crime. Oppewall explica determinados aspectos do cenário que indicam a projeção da narrativa: a corte é feita de madeira e não de pedra, uma vez que o primeiro é mais fácil de ceder; e seu teto parece o fundo de um barco apontando que a vila foi virada de ponta cabeça.


Além disso, ela descreve a parte da pesquisa que antecede a estruturação física, relembrando sua busca por mapas, documentos, cartões postais, entre outros materiais que revivem uma época ou capturam a essência de um lugar que deve ser retratado.


Finalizando com as perguntas da público, ela não permite que os aspirantes a diretores de arte brasileiros saiam desanimados devido à dificuldade de construção e alteração de plantas de locação no país: é antes de tudo imprescindível que se conheça os personagens, monte-os a partir do que se tem, de objetos e, necessariamente, de cores.


Por fim, resta a conclusão de Vitória Pompeu, estudante de audiovisual e realizadora independente, quando perguntada sobre a importância do evento: “acredito que o evento é uma boa investida para a comunicação entre profissionais, estudantes e empresas do audiovisual brasileiro. Vejo que as mesas apresentadas abordaram assuntos bem contemporâneos sobre a área em um único lugar, sendo muito positivo pra estar ligado em muita coisa e conhecer pessoas.


A Semana ABC, portanto, contempla o proposto por Pryscilla Bettin ao oferecer um espaço gratuito para aprendizado cinematográfico, além da postagem de todas as palestras no YouTube, oferecendo, assim, aos interessados uma nova forma de encarar o conteúdo audiovisual que consomem, auxiliando na construção de um olhar crítico tão necessário no presente contexto histórico.


Escrito por Giovana Pedrilho

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