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O existencialismo melancólico de Blade Runner 2049

Em seu livro “24/7: Capitalismo tardio e fins do sono”, Jonathan Crary explora a possibilidade de uma sociedade futura onde não exista noite, a privação de sono se torne uma realidade graças a remédios que recondicionar o corpo humano para o progresso do mercado. Nessa distopia, não haveria pausa do trabalho, nem respiro para o organismo. Satélites posicionados para refletir a luz solar extinguiriam a escuridão noturna, podendo criar áreas praticamente sem sombras.


Isso estimularia o comércio abundantemente: para manter a energia, a população teria que se alimentar mais, criariam novos entretenimentos e adaptariam os antigos. Seria, também, uma “sociedade do cansaço”, longe de sua natureza que exige ciclos dia-noite, arrasando o meio ambiente pela demanda incessante de matéria e escoamento de dejetos.

Crary discorre sobre um mundo devastado, incapaz de se sustentar. Essa é uma pintura que remete o universo de Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve que, entretanto, não tem como principal objetivo traçar o futuro da humanidade ou arriscar reflexões sobre a preservação da natureza como um First Reformed. Villeneuve reviveu Blade Runner, trazendo Androides sonham com ovelhas elétricas? - livro que inspirou a obra de Ridley Scott – para sua sequência, destacando pontos anteriormente apagados quando as páginas foram adaptadas para a tela como os locais que rodeiam a cidade principal na Califórnia. Além de ter alcançado isso, ele também permite a contemplação de um planeta que não dorme, assombrado pelos arredores do centro metropolitano, repleto de entulho e áreas desertificadas, contaminadas pela radiação.


Blade Runner 2049 traz, em seu cenário, a melancolia de um presságio catastrófico, literalmente um ponto em que a Terra é desertada por seus habitantes que dão preferência à colonização espacial feita por replicantes que, apesar de imitarem a biologia humana, contemplam-se incapazes de alcançar a complexidade da liberdade, tendo que agir como máquinas que não dormem, como trabalhadores ideais.

Acompanhando a trajetória de K - interpretado por Ryan Gosling -, caçador de androides, o filme retrata o existencialismo contido na dúvida do que é de fato estar vivo, o que significa a maré de sentimentos que invadem a mente e o que ela diz sobre quem a tem. Caminhando para um despertar melancólico de sentidos, a direção de arte ressalta a ideia do estar sempre acordado: há luzes por todos os lados com pelo menos um foco bem delineado, as propagandas inundam o ambiente com sons que se confundem na multidão ou hologramas dantescos criando um verdadeiro caos sinestésico nascido da poluição sonora e visual na diegese que, quando assistido, irônica e magnificamente, apresenta-se agradável, hipnótico. O desenho sonoro acende o cyberpunk atual, com notas que indicam mais ação e fluxo de acontecimentos-pensamentos, diferente de Vangelis que reforçava o labirinto de experimentações que Deckard percorria.


Villeneuve estrutura uma nova ambience para a semente de Philip K. Dick, levando o espectador a descobrir mais da distopia em cenários já narrados, porém até então nunca visualmente construídos; adensa o comportamento e o psicológico que envolvem o ato de aposentar um replicante; utiliza do conhecimento palpável no avanço tecnológico real para engendrar hipóteses lógicas, como o relacionamento de K com Joi de uma maneira mais doce e realista do que visto em Her, por exemplo.

Assim, fugindo aos clichês de ficção científica, Blade Runner 2049 não é uma previsão cabulosa de futuro, não pretende alertar sobre consequências, porém arquiteta um pensamento que ronda o século XXI: o cansaço meditativo e existencialista. Dessa maneira, sem apostar em exageros metafóricos para fazê-lo, Denis Villeneuve produziu algo que faz essa filosofia fluir naturalmente, como que inerente aquilo que é assistido.


Escrito por Giovana Pedrilho


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