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A Vida e a Obra de Charles Chaplin

Uma das personalidades mais icônicas do início da história do cinema foi a de Charlie Chaplin. Talvez um dos maiores expoentes do cinema mudo, Chaplin era meticuloso em seu trabalho, um perfeccionista que inovou em muitas das técnicas até então utilizadas.

E é por isso que trazemos uma pequena Biografia de Chaplin, passando por sua vida cheia de controvérsias e sua obra extremamente influente.


Vida

“Machinery that gives abundance has left us in want.

Our knowledge has made us cynical.

Our cleverness, hard and unkind.

We think too much and feel too little.

More than machinery we need humanity.

More than cleverness we need kindness and gentleness.

Without these qualities, life will be violent and all will be lost.”


Sir Charles Spencer Chaplin, nascido em 16 de Abril de 1889, Londres, filho de dois músicos que, logo após o nascimento do filho se separaram, e o pequeno Charlie ficou aos cuidados da mãe instável, seu pai morreu devido ao vício em bebida quando Charlie tinha apenas 12 anos, no mesmo ano em que sua mãe foi internada no Asilo Cane Hill, onde morreu, em 1928.

Em 1912, Chaplin se juntou a uma companhia alemã de comédia, devido à influência de seu meio-irmão, Sydney, que deu uma ajuda ao garoto, e, no mesmo ano, entrou nos Estados Unidos com a companhia. Foi nessa época que conheceu Stan Laurel (o magro, de O Gordo e o Magro), com quem dividiu o quarto numa pensão. A atuação foi notada pelo produtor Mack Sennet, que o convidou para os estúdios Keystone, onde Charlie demonstrou talento, e obteve autonomia, tendo poderes para atuar, produzir, escrever e dirigir seus filmes, que adquiriram fama rapidamente. Em 1919, fundou seu próprio estúdio, junto com outros artistas, o United Artists.

Em 23 de Outubro de 1918, Charlie casou-se pela primeira vez, com Mildred Harris, que na época tinha 16 anos, eles tiveram um filho deformado, que morreu três dias após o nascimento, separaram-se dois anos depois.


Aos 35 anos, casou-se de novo, com Lita Grey, também de 16 anos em 26 de Novembro de 1924, no México, tiveram dois filhos e divorciaram-se em 1926, quando a fortuna de Chaplin beirava os US$900.000,00. O estresse do divórcio deixou-o de cabelos brancos. Aos 47, casou-se secretamente, com Paulette Godard, que tinha 25 anos em 25 de Junho de 1936.


Essa foi uma época conturbada na vida do cineasta, pois na mesma época, Charlie se envolveu com outra atriz, Joan Barry, que, em 1942 alegou ser mãe de um filho dele, envolvendo o astro num escândalo público, que tomou a mídia americana por anos, terminando com Charlie sendo obrigado a pagar US$75 para Joan por mês, até que o garoto completasse 21 anos, acabou divorciado mais uma vez e com 2 filhos para criar.


Casou-se pela última vez em 16 de Junho de 1943, com Oona O'Niel (com 17 anos na época), ele tinha 54 anos. Depois do casamento, Charlie quis levar Oona para viajar o mundo, e, ao sair do país, foi ameaçado de ter seus bens confiscados pelo governo americano, sua reação foi surpreendente: disse que poderiam vender tudo. Em 1954, quando decidiu voltar aos E.U.A, seu visto foi cassado, alegando-se "atitudes anti-americanas", num processo encabeçado pelo próprio Edgar J. Hoover, na época do Macarthismo, decidiu então ficar na Europa, indo morar com sua nova esposa, onde teve 8 filhos.

Charlie Chaplin é tido como um dos grandes injustiçados quando o assunto é os grandes nomes esquecidos pelo Oscar. No entanto, na cerimônia de 1972, em uma demonstração de que a Academia talvez tenha se arrependido, Chaplin recebeu um Oscar honorário, em um dos momentos mais emocionantes da história do Oscar (Link).

Em 4 de Março de 1975, foi condecorado Sir pela rainha Elizabeth II. A condecoração foi proposta em 1956, mas foi vetado, pois achavam que Charlie era comunista.


Charlie morreu em 25 de Dezembro de 1977, em consequência de um derrame cerebral, foi enterrado em Vevey, na Suíça. Três meses depois, um bando de mecânicos búlgaro-poloneses invadiram o cemitério e violaram o túmulo, roubando o corpo (sim, o próprio corpo), numa tentativa de extorquir dinheiro da família. O plano falhou e três dias depois, os bandidos foram capturados, o corpo foi achado onze semanas depois, no lago Léman. Desta vez, foi enterrado debaixo de um tampão de 2 metros de espessura (exigência da família), onde hoje tem uma estátua do Mestre.

Em 1992, foi feito um filme sobre sua vida, interpretado por Robert Downey Jr. (genial no papel), Geraldine Chaplin (filha de Chaplin, que interpreta sua própria avó no filme), Antony Hopkins, Mila Jovovich, Kevin Kline, Diane Lane, Marisa Tomei, entre muitos outros astros, e dirigido por Sir Richard Attenborrough.


Obra

No início, quando ainda trabalhava para o estúdio de Mack Sennet, Chaplin atuou em vários filmes, mas nenhum obteve o sucesso que Mack tinha visto no comediante inglês. Mack e Charlie tiveram a idéia de representar um homem maltrapilho, que andava engraçado, sempre com a bengala torta e chapéu, inspirado nos palhaços clássicos, adaptado para o cinema, nascia assim o personagem que eternizou Charlie Chaplin: o Vagabundo


Lançado em 1914, o primeiro filme de Chaplin com o personagem do Vagabundo foi "Mabel's Strange Predicament", obteve uma repercussão extraordinária no cenário americano.


Segue um trecho retirado da autobiografia dele, onde ele conta como nasceu o visual:

"I had no idea what makeup to put on. I did not like my get-up as the press reporter [in Making a Living]. However on the way to the wardrobe I thought I would dress in baggy pants, big shoes, a cane and a derby hat. I wanted everything to be a contradiction: the pants baggy, the coat tight, the hat small and the shoes large. I was undecided whether to look old or young, but remembering Sennett had expected me to be a much older man, I added a small moustache, which I reasoned, would add age without hiding my expression. I had no idea of the character. But the moment I was dressed, the clothes and the makeup made me feel the person he was. I began to know him, and by the time I walked on stage he was fully born."


A comédia de Chaplin era mais física, menos centrada em piadas comuns, mas com gags visuais, que eram relativamente novas para o público na época, talvez pela influência de seu trabalho no circo, ou pela necessidade de se transmitir o personagem através da fisicalidade (por o cinema ser mudo).


Isso foi a marca registrada de Chaplin, e mesmo em seus filmes falados, a comédia não deixa de ser extremamente física, a movimentação do ator (mesmo quando ele não interpretava o Vagabundo, como em Luzes da Ribalta) era característica e logo se tornou conhecida pelo mundo inteiro.


O Vagabundo.

O personagem principal de Charlie nunca recebia nomes nos seus filmes, e sempre levava algumas características muito marcantes, como as atitudes refinadas, o chapéu, a bengala, o andar, o bigode, as calças largas, sapato furado, camisa apertada e normalmente em frangalhos.


Em 1916, a Mutual Film Corporation pagou US$ 650.000 para Chaplin fazer filmes para eles, dando total controle artístico a ele, que pode deslanchar sua careira da maneira que quisesse, produziu filmes conhecidos na época, como "Easy Street", "The Pawnshop", 'The Adventurer", esses filmes são diferentes das suas obras mais conhecidas, pois continham um elemento quase inexistente nos filmes mais tardios: a vilania. Depois de terminado esse contrato, houveram muitos outros, com empresas estatais, privadas, enfim, uma infinidade de filmes foram produzidos.


United Artists

Em 1919, um Chaplin diferente, mais rico, mais experiente, co-fundou a distribuidora United Artists, com outros artistas que buscavam mais liberdade criativa (Douglas Fairbanks, D.W. Griffith e Mary Pickford).


Foi nessa época que abriu o Charlie Chaplin Studios, onde filmou a maioria das suas obras-primas, onde pôde produzir filmes maiores (com outros estúdios, ele fez curtas-metragens para os padrões modernos), os quais comentaremos a seguir, cronologicamente.


The Kid (1921)

Uma mulher deixa uma criança abandonada à própria sorte na rua. O Vagabundo, que andava pelas ruas encontra o bebê e tenta devolve-lo para sua mãe, mas descobre que ele é órfão e decide criá-lo. Os dois ganham a vida aplicando um golpe: um joga pedras na janela, e o outro aparece como um restaurador.


Esse filme foi produzido após a morte do primeiro filho de Charlie, e carrega uma carga emocional muito forte, além de ser curtíssimo (50 minutos), consegue contar uma história bela sobre a relação de pai e filho que consegue arrancar risos se qualquer platéia e até uma lágrima casualmente.


The Gold Rush (1925)

O Vagabundo está no Alasca, buscando ouro, e passa por condições extremas, tentando sobreviver (chegando a ter que comer a própria bota). Depois, quando está a salvo, na cidade, dá um golpe (mais uma característica do Vagabundo: a malandragem, que não chega a ser maldosa, mais feita por necessidade) num velho dono de uma barraca e passa a viver lá. Conhece uma dançarina de uma casa de shows e se apaixona.

O filme originalmente era mudo, mas posteriormente, o próprio Chaplin dublou e narrou o filme, que acabou fazendo muito mais sucesso. Esse filme demonstra até onde o homem vai por dinheiro, e por amor também.


Contém uma das cenas mais relembradas da obra de Chaplin: uma sequência de sonho, onde o Vagabundo sonha com comida e companhia em uma noite fria.


City Lights (1931)

Novamente temos o Vagabundo na cidade, seu habitat natural, onde ele conhece uma florista cega, que o toma por um homem rico. Nisso, o personagem conhece um rico suicida e o salva, tornam-se amigos. Nisso, o Vagabundo e a Florista passa a se amar, ele pega o carro do seu novo amigo emprestado e sai com ela pela cidade, ostentando uma riqueza que não tem. O dono do cortiço em que a mulher mora ameaça-a de despejo caso não pague o aluguel. O Vagabundo oferece ajuda, mas, como não é rico, tem que ganhar o dinheiro até o dia seguinte.


Nesse filme, que foi lançado depois que o cinema mudo perdia espaço para o cinema falado, as vozes de alguns personagens é feita por instrumentos musicais, ironizando o cinema falado. Em "Luzes da Cidade", fica clara a crítica contra os ricos, no personagem do rico suicida, que só é amigo do Vagabundo quando está bêbado.


Modern Times (1936)

O filme que quase todo mundo viu na escola.


Um operário sofre um ataque nervoso e é demitido da fábrica. Assim começa a história de amor entre o Vagabundo, sempre à procura de emprego, e de uma órfã moradora de rua.


Modern Times foi filmado durante a época da recessão americana, desemprego, falta de moradia, crime e a desgraça caíam sobre o povo americano. Chaplin mostra aqui sua veia crítica, onde ele critica a sociedade em geral, ninguém escapa ao olhar irônico do diretor, os patrões, os operários, policiais, os ricos, comunistas, capitalistas, toda a sociedade é criticada no filme.


Nessa época, já era inevitável não usar a fala no filme, mas Chaplin conseguiu juntar os dois: durante o filme, a única voz que se ouve sai de máquinas. O eterno embate entre homem e máquina nunca foi tão vivo. Na sequência de abertura, há um paralelo entre a força de trabalho das fábricas e o gado que se encaminha para o abate.


E nesse filme, o público esperava ouvir a voz do astro, e ele não decepcionou. No final, quando trabalha como garçom-cantor, chaplin canta, assim, cairia no impasse de acabar com sua imagem de mímico, mas achou uma solução, no filme, o Vagabundo não decora a letra e simplesmente canta, usando palavras sem sentindo, mantendo o espírito mímico de seus filmes e mesmo assim mostrando sua voz para o grande público.


The Great Dictador (1940)

Chaplin deixa para trás o personagem do Vagabundo para interpretar dois ao mesmo tempo: o ditador Heynkel e um barbeiro Judeu que perde a memória em uma Guerra, que são sósias e nunca chegam a efetivamente se encontrar. Ao voltar para casa, o Judeu descobre que Heynkel decidiu caçar o povo judeu de seu país. O filme mostra o ponto de vista dos dois personagens, o Ditador procura dominar o mundo, e o Barbeiro, busca viver pacificamente.


A obra-prima de Chaplin, na minha opinião, uma crítica ferrenha ao Nazismo e às instituições fascistas da Europa dos anos 30/40 (no personagem engraçadíssimo Benzino Napaloni, ditador da Bacteria). O ditador interpretado por Chaplin é franzino, inseguro e extremamente cômico, chegando a ser ingênuo (o registro pessoal do cinema de hitler acusa que ele assistiu esse filme duas vezes).


Esse foi o primeiro filme 100% falado que Chaplin produziu e foi lançado quando os E.U.A ainda eram neutros na Guerra. Esse fato fez com que os americanos nem soubessem do que se passava nos campos de concentração de judeus. Quando Chaplin soube, disse que nunca faria graça com algo assim. No final, o Ditador e o Barbeiro (que havia sido preso num campo de concentração) trocam de lugar, e sai daí um dos discursos mais memoráveis do cinema.

Após, Chaplin produziu mais filmes, mas nenhum voltou ao Vagabundo ou ao sucesso crítico e exploratória dos filmes anteriores (o que é uma pena, pois alguns de seus filmes tardios são cheios de críticas políticas e à sua própria carreira): em 1947, lançou Monsieur Verdoux (sobre um assassino de mulheres ricas), em 1952, Luzes da Ribalta (sobre um velho ator buscando voltar aos seus dias de glória) e em 1957, Um Rei em NY (sobre um monarca europeu exilado de sua terra natal por ter sido acusado de ser um comunista).


Escrito por Fernando Cazelli

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