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Crítica: Collective - Alexander Nanau (2019)

Uma equipe de jornalistas investigativos entra em ação, descobrindo a corrupção em massa do sistema de saúde e das instituições do Estado, abordando questões sobre propaganda e manipulação que até hoje afetam não apenas a Romênia, mas também sociedades em todo o mundo.

Após um incêndio no clube Colectiv em 2015 cuja infraestrutura não permitia a saída adequada dos clientes – à lá a tragédia da boate Kiss de Santa Maria (RS) em 2013 –, a política romena fragilizada entra em colapso. O caso desmascara a corrupção na administração de hospitais, o descaso com os pacientes vítimas de queimaduras, a negligência com os protocolos de segurança sanitária ocasionando surtos de bactérias que levaram muitos dos feridos à óbito. Manifestações de rua conduzem à renúncia do ministro da saúde e a implantação de um governo provisório com uma nova estratégia formada pelo seu sucessor, Vlad Voiculescu.


Com duas indicações ao Oscar 2021 (Melhor Filme Internacional e Melhor Documentário), Collective, dirigido por Alexander Nanau, aborda uma linguagem jornalística do ocorrido, começando pelo escritório de Catalin Tolontan, editor-chefe da Gazeta Esportiva de Bucareste, quando ele e sua equipe descobrem que os hospitais utilizavam desinfetantes diluídos cujo efeito não era 100% seguro, promovendo a disseminação de bactérias.

A câmera faz parte da narrativa, dentro do escritório de Tolontan, ela passeia pelas baias, faz closes nos computadores e assiste às reuniões internas dos jornalistas e outras com suas fontes. Os rostos não ficam encobertos, os relatos não são censurados ou feitos pela metade, a imagem e o som mostram aquilo ao que a mídia teve acesso e, inclusive, partes não publicadas. Nanau também optou por montar de forma cronológica.


Apesar de ser impossível que o filme contextualize a política da Romênia em 1h49min de filme, ele tem acesso ao ministro da saúde, tornando a câmera uma cúmplice da tentativa de Voiculescu em criar medidas que assegurem a segurança mesmo após a eleição do ano seguinte e seu bate-e-volta com argumentos da oposição enquanto ele tenta explicar a “podridão” – como ele chama – do sistema para a população romena, não poupando críticas à administração.


Por outro lado, o calibre político de Collective procura equilibrar na balança mais um pilar da democracia após o político e o midiático: o cidadão, em especial aquele prejudicado pela Colectiv e os hospitais. Assim, entramos em contato com os sobreviventes e pais das vítimas, assistindo a coletivas de imprensa e, principalmente, pela figura de Tedy Ursuleanu, jovem gravemente queimada na tragédia, vemos sua forma de expressão, posando para um ensaio fotográfico que recorda – ou não permite que esqueçam – suas cicatrizes e suas novas batalhas como, por exemplo, se acostumar com a prótese de mão.

Nanau oferece um documentário que busca ser entendido, ao invés de descarregar informações novas no público, ele traça um rápido panorama com cartelas e, ao acompanhar tanto Tolontan quanto Ursuleanu e o ministro Voiculescu, permite que a transparência conte a história na íntegra imagética, unindo três núcleos para juntar as peças dessa história.


Collective sobe os créditos após a sequência de uma família indo visitar o filho falecido pelas consequências do tratamento hospitalar; no carro, o pai liga o rádio e canta uma música, ele então aponta para o céu e a tela fica preta. Terminamos assim, porque nada foi definitivamente resolvido, as medidas de Voiculescu são frágeis, Tolontan e sua equipe enfrentarão as consequências de sua cobertura e a política continua um ouroboros. Um documentário que serve tanto para a especificidade da Romênia quanto também é aplicável a demais cenários de corrupção e solidez de esquemas antigos. Collective é tanto universal quanto único.


Escrito por Giovana Pedrilho


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