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Crítica: Marighella - Wagner Moura (2019)

Sinopse: Comandando um grupo de jovens guerrilheiros, Marighella tenta divulgar sua luta contra a ditadura para o povo brasileiro, mas a censura descredita a revolução. Seu principal opositor é Lúcio, policial que o rotula como inimigo público.

Carlos Marighella certamente é um personagem que divide opiniões no Brasil, não à toa que na letra dos Racionais MC 's é dito que fiquem à postos ao Seu General, "mil faces de um homem leal". Wagner Moura, estreando na direção, nos mostrou algumas das faces do guerrilheiro comunista e fundador da Aliança Libertadora Nacional. Mas será que faces importantes e essenciais do inimigo número um do regime militar foram devidamente evidenciadas no filme, que finalmente estreia nos cinemas no próximo dia 4 de Novembro?


Como um filme de ação, não há do que reclamar. O primeiro longa com a direção do longínquo Capitão Nascimento é tudo menos entediante. Com sequências de ação muito bem coreografadas e fotografadas, o clima de tensão e de pânico paira sobre toda a duração do filme, fazendo as suas duas horas e meia parecerem cerca de trinta minutos. Em nenhum momento o diretor dá chance para o descanso, e constantemente o desenrolar dos acontecimentos fisga o espectador em uma malha complicadíssima de escolhas morais, políticas e pessoais que podem significar a derrubada de uma ditadura ou a derrota de um grupo de jovens revolucionários.

A atuação de Seu Jorge como o guerrilheiro urbano traz traços característicos da brasilidade desta figura que em dado momento do filme quando perguntada qual linha marxista se alinha, diz apenas que é "um brasileiro". Como bem diz a já citada letra de Mano Brown, "Revolução no Brasil tem um nome", e esse nome e esse rosto da revolução brasileira é interpretado por Seu Jorge com o peso e expressividade emocional e física dignos de um homem do calibre histórico de Carlos Marighella.


O resto do elenco também não deixou nada à desejar. A atuação de Humberto Carrão como o personagem "Humberto, o comunista comunista demais" merece um destaque pela forma que reage às tensões e frustrações de uma atividade revolucionária clandestina e ilegal. O personagem de Humberto protagoniza talvez a cena mais memorável de todo o filme, mas em relação a esta cena, os louros devem ir para o roteiro que Moura escreveu ao lado de Felipe Braga.

Devemos ter em mente que o aspecto político e ideológico é a base do debate sobre a figura de Carlos Marighella, e por isso, era esperado que o diretor entrasse neste debate de alguma forma. Inclusive, é de se admirar a coragem dos envolvidos na produção de contar a história de uma figura como esta no cinema em um momento em que o próprio Presidente da República faz ataques às forças da cultura que tem algum viés minimamente progressista.


Ao mesmo tempo, o filme é produzido pela Globo Filmes, então como fica esse aspecto do filme? Aparentemente Wagner Moura tentou agradar gregos e troianos na hora de falar sobre política durante o longa. Esse é o principal problema de Marighella, tentar agradar uma ala mais liberal e uma centro-esquerda progressista esvaziando completamente as ideologias em um filme sobre revolucionários comunistas.

Ficou evidente que o diretor tomou decisões de narrativas que acabam por diluir a importância e o contexto em que coexistiram a luta armada revolucionária e o regime ditatorial do Estado brasileiro pós golpe militar de 1964. Sendo atraído por um maniqueísmo advindo do cinema policial e de ação estadunidense, o diretor acabou por sintetizar a ameaça de todo o regime militar brasileiro na figura de Lúcio, vivido brilhantemente por Bruno Gagliasso.


O que resta dessa criação de um microcosmo representativo do período é o esvaziamento político e ideológico dos personagens, que em nenhum momento debatem questões centrais sobre as visões de mundo que também estavam em conflito durante a ditadura militar. É preciso lembrar que essa ameaça do regime estava nas escolas, nas ruas, nos campos, nas fábricas, nas redações dos jornais, no congresso, no Palácio, e não dentro de uma única delegacia de polícia dentro do Município de São Paulo. As disputas no filme entre os personagens "bons" e "ruins" é quase em um nível pessoal.

A visão romântica de Moura nos apresentou um Marighella, e alguns outros guerrilheiros urbanos, que não discutem política, não debatem seus marxismos, não estendem a sua luta para outras práxis e muitas vezes o filme flerta inclusive com as próprias narrativas dos militares golpistas ao retratá-los como pobres apaixonados que explodem bancos.


No filme o personagem de Herson Capri representa um "partido", um partido sem nome, sem cara, sem contexto e sem história. Marighella foi militante do Partido Comunista do Brasil por 30 anos e chegou a ser eleito deputado pelo partido. Porém de acordo com o filme de Wagner Moura a palavra "comunista" significa algo pífio como um indivíduo que se revolta contra uma ditadura militar no Brasil, esquecendo completamente as complexidades sociais e ideológicas que existiam naquela época.

É um filme importante, a história deste brasileiro precisava ser contada. É de espantar a coragem e a vontade de fazer ser ouvido o grito de resistência que o inimigo número um do regime militar legou aos seus companheiros. No Brasil atual, tomado por Bolsonaro, qualquer tentativa de reascender a chama e a essência da luta de esquerda contra o autoritarismo, o racismo, a LGBTQIAP+fobia, a anti-cultura e a ideologia neoliberal genocida é bem vinda e de muito bom tom. Mesmo com todos os atrasos, o filme veio na hora certa.


No final das contas, a gramática emprestada dos thrillers policiais estadunidenses, a visão mais diluída do diretor em relação à dimensão da ameaça da ditadura militar brasileira e o esvaziamento ideológico da práxis revolucionárias dos guerrilheiros e de Carlos Marighella serviu ao maniqueísmo mas gerou um filme certamente eletrizante e que mexe com as emoções dos espectadores. Porém ele falha em não estimular a reflexão um pouco mais aprofundada sobre a luta armada comunista brasileira.


Escrito por Gabriel Pinheiro

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