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Crítica: Cruella - Craig Gillespie (2021)

“Ambientado em Londres de 1970, na cena da revolução do punk rock, o filme acompanha uma jovem vigarista chamada Estella, uma garota esperta e criativa determinada a construir uma reputação com seus designs. Ela faz amizade com dois jovens ladrões que apreciam seu apetite por travessuras e juntos eles podem construir uma vida nas ruas de Londres. Um dia, o talento de Estella chama a atenção da Baronesa von Helllman, uma lenda da moda. A relação das duas inicia uma cadeia de eventos e revelações que leva Estella a aceitar seu lado malvado e se tornar a vingativa Cruella.”

Notavelmente a Disney vem apostando em remakes de seus clássicos originais em live-action. É um sinal de falta de criatividade e originalidade, dadas a situação de reciclagem de material antigo que o estúdio vem fazendo desde Malévola, de 2014. Por diversas vezes essa mecânica não funciona muito bem, os clássicos da Disney são clássicos, fazendo com que os realizadores corram um grande risco de não conseguirem superar o longa original ou de serem repetitivos. Exemplos dessa situação se materializam facilmente nos remakes de Dumbo, Aladdin, O Rei Leão, A Dama e o Vagabundo e Mulan, que ou caem na mesmice, ou ficam extremamente aquém do filme original.


Porém, assim como Malévola, que iniciou essa nova fase da Casa do Rato, Cruella também teve uma abordagem diferente do material que deu origem ao remake. Ambos os filmes não se prenderam à história original e propuseram uma abordagem diferente, ousada e, pasmem, original. Cruella é, talvez, o melhor exemplo de como reciclar um clássico já consagrado e uma história que já estamos cansados de ouvir. Esse novo longa, lançado nos cinemas em conjunto com o streaming Disney+, pode ser uma boa surpresa aos que já estão enjoados desses remakes.

Mas nem tudo são flores, o filme parece ter duas partes que se diferem de forma esdrúxula. A primeira metade do filme é extremamente bagunçada, de cara somos introduzidos ao recurso da narração em off que aqui soa preguiçosa e fora de tom, o que não irrita muito na segunda metade do filme, pois parece que os realizadores esqueceram de usar no resto dele. A montagem é desorganizada e aleatória, trazendo uma pilha desnecessária de cortes em cenas de contexto tranquilo, como a de uma viagem de carro entre mãe e filha. Os diálogos nessa parte são formulaicos e as atuações beiram ao teatral com interpretações forçadas. Parece que faltou uma direção mais estruturada e melhor pensada por parte de Craig Gillespie, que trabalhou muito bem em Eu, Tonya de 2017. Nessa parte inicial já é perceptível, no entanto, os pontos altos que se sustentam ao longo do filme, o design de produção e figurino é ótimo e a construção da trilha sonora é no mínimo empolgante.


Somos introduzidos então à Estella, personagem interpretada por Emma Stone, é aqui que uma linha é traçada e o filme realmente engata em sua segunda metade, muito melhor pensada e executada. Stone está incrível como Estella/Cruella, o trabalho da atriz para dar o tom da dupla personalidade da personagem é sustentado de forma coerente por ela. Sempre muito bem acompanhada do trabalho da equipe de arte e de figurino ela é ousada, feroz, fabulosa, hilária e assustadora como Cruella e Estella acaba por nos encantar pela sua história e pelas nuances sutis de gentileza e bom coração que Emma Stone dá para a “identidade secreta” da nova estilista de Londres.

Emma Stone está muito bem acompanhada aqui por Emma Thompson, que faz a antagonista Baronesa ser extremamente odiável e nojenta, Paul Walter Hauser, Joel Fry e John McCrea como Horácio, Jasper e Artie, os três engraçadíssimos capangas de Cruella e Kirby Howell-Baptiste como a repórter Anita. O britânico Mark Strong mais uma vez é um “braço direito do mal” da antagonista e faz o que sabe fazer de melhor, ter uma atuação invisível e ser (um pouco) malvado.


O filme encontra então o seu equilíbrio nessa sua segunda metade, todas as aparições de Cruella são muito bem pensadas e muito divertidas, ela realmente sabe dar um show. A direção se encontra, a montagem se acalma (inclusive, em cenas de ação e de perseguição temos menos cortes?), as interpretações começam a florescer melhor e o ritmo é retomado com uma trilha sonora de fazer qualquer fã de Rock n Roll lacrimejar.

No final das contas, por mais que seja mal ajambrado, desorganizado em algumas partes, ter uma narração em off "de lua" que não sabe se vai ou se fica, o novo filme da Disney é sim um ótimo exemplo de como fazer um bom remake de um clássico. O longa faz exatamente como a sua protagonista, rompe com o “antigo” de forma ousada, corajosa e com um pouco de malícia.


Escrito por Gabriel Pinheiro


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