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"Encurralado", de Steven Spielberg e o bullying

Bullying é uma temática muito recorrente no cinema, especialmente em filmes estadunidenses, uma vez que essa é uma realidade cruel por lá. Filmes como “Carrie”, “Bem Vindo à Casa de Bonecas”, “Elefante”, “Extraordinário”, “Meninas Malvadas”, “17 Outra Vez”, “Karate Kid” e “Dumbo” abordam tal tipo de violência. “Duel”, ou “Encurralado” possivelmente também fala sobre o bullying, ainda que de forma mais indireta, entenda o porquê.

Bullying surgiu do inglês bully, que significa valentão no português e denota a prática de atos violentos, intencionais e repetidos contra uma pessoa indefesa, realizado por um ou mais indivíduos, com o objetivo de intimidar, humilhar ou agredir fisicamente a vítima, geralmente feito contra alguém que não consegue se defender ou entender o motivo. A vítima teme os agressores, seja por causa da sua aparente superioridade física, intimidação e influência que exercem sobre o meio social inserido. O bullying pode ser praticado em qualquer ambiente, como na rua, na escola, na igreja, em clubes, no trabalho, entre outros.


Pois bem, vamos ao filme. “Encurralado” conta a história de David Mann (Weaver), um educado vendedor de eletrônicos que está dirigindo seu carro pelas estradas da Califórnia, quando começa a ser perseguido por um caminhão gigantesco, dirigido por um homem não identificado, que parece querer brincar com ele perigosamente na estrada. No decorrer do trajeto, David começa a perceber que a perseguição não se trata de uma mera brincadeira. A medida em que as provocações do misterioso caminhoneiro atingem níveis mortais, David procura desesperadamente despistar o seu torturador.


Dito isso, porque “Encurralado” pode ser considerado um filme sobre bullying?

Em primeiro lugar, o caminhoneiro pratica atos violentos, premeditados e repetitivos contra David Mann ao longo de sua jornada, fazendo coisas como dar espaço, o protagonista ultrapassá-lo e o homem do caminhão ficar na cola do mesmo, fazendo com que Mann dê espaço para o caminhoneiro e o mesmo ande devagar de propósito, repetidas vezes, até que a “brincadeira” evolua para algo mais perigoso, como por exemplo, quando Mann começa a aumentar de velocidade à fim de fugir do caminhoneiro maluco, que também acelera somente para persegui-lo e aterrorizá-lo, posteriormente batendo em sua traseira para que o carro derrape, ou quando Mann para em algum lugar e o caminhoneiro também para próximo a ele, só para continuar a perseguição.


Em segundo lugar, o objetivo do caminhoneiro era intimidar Mann, que obviamente não conseguia se defender de um caminhão de combustível, inflamável, muito maior, pilotado por um motorista maluco e agressivo que poderia matá-lo e não o parava de perseguir, tudo por conta de um ego ferido em uma ultrapassagem no começo do filme, o fazendo se sentir ansioso, fazendo-o pensar se ele será morto, se continuaria sendo perseguido ou o que diabos que o caminhoneiro quer com ele. Se o objetivo do motorista do caminhão era torturar psicologicamente o pobre protagonista, ele conseguiu, já que Mann tem até mesmo uma crise de dor de cabeça, tendo de tomar aspirina, tamanho estresse com a situação.

Em terceiro lugar, Mann, especialmente na metade do segundo ato, já com medo e intimidado pelo Bino do mal, começa a temer sua própria vida por conta do tamanho e perseguição do caminhão, por parecer que o homem estará atrás dele não importa onde ele esteja, sem saber a causa disso estar acontecendo e o que poderá ocorrer depois, além do que, o caminhoneiro exerce uma imagem neutra ou boa ao seu redor, especialmente na cena onde resgata um ônibus escolar, isto é, boa influência no ambiente, para que ninguém suspeite da perseguição.


O local propício, pode ser qualquer um, no caso de “Encurralado”, foi escolhido o local menos provável, a estrada, ainda mais com dois personagens que não são crianças ou adolescentes e sim adultos. Mesmo assim, tais circunstâncias não fazem com que essa discrepância de poder seja impossível de ocorrer.


“Encurralado” é um dos primeiros filmes de Steven Spielberg. Lançado para a TV em 1971, o longa já era inovador por suas técnicas de direção imersivas como planos fechados, câmeras subjetivas, planos-detalhe e cores levemente desbotadas, sendo grande influência para o slasher, subgênero do terror calcado em assassinos que aterrorizam e matam suas vítimas sem um objetivo claro, popularizado no final desta década. Tais métodos opressores de direção contribuem para a tensão que o diretor quer causar ao público, criando uma imersão e fazendo o espectador sentir tanta ansiedade quanto o protagonista da obra, no melhor estilo “e agora, o que será que vai acontecer?”, realçando a imprevisibilidade, o temperamento nervoso e intimidador do caminhoneiro insano, cuja identidade não revelada colabora com a tensão.

Encurralado é um suspense de primeira, um retrato da intimidação, humilhação e da sensação de tensão que, infelizmente, muitos, em especial alguns alunos das escolas, sofrem todos os dias, os deixando com medo, aflitos e sem saber o porquê estão sendo intimidados repetidamente e o tempo todo, sem a menor chance de se defender, uma vez que o rival é poderoso demais e é um obstáculo que parece impossível de ser combatido. O filme é uma ótima metáfora, com o caminhoneiro sendo o bully, David Mann a vítima do bullying e a rodovia, a escola.



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