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Crítica: Hausu - Nobuhiko Ôbayashi (1977)

“Uma jovem estudante e suas seis colegas viajam até a casa de sua tia no interior, que as tenta devorar de diversas formas” (Fonte)

Com essa premissa simples, Hausu é um dos filmes mais estranhos e psicodélicos já produzidos, que utiliza suas limitações de forma criativa, criando uma obra marcante e única.


No centro da trama está Gorgeous (mais sobre os nomes absurdos das personagens à frente), uma estudante modelo que inicia o filme conversando com uma de suas amigas sobre seus planos para o verão. Em casa, ela é apresentada à nova esposa de seu pai (sua mãe faleceu há 6 anos), e em um ataque de ciúmes, decide ir para a casa de sua tia passar o verão, com suas 6 amigas da escola.

Utilizando-se dos clichês mais rasos e superficiais possíveis (por exemplo, as personagens principais são reduzidas a uma característica que as define, o que se traduz até nos nomes delas – Gorgeous, Fantasy, Professor, Kung Fu, Mac, Sweet e Melody) no roteiro, edição e música, Obayashi começa o filme demonstrando que sabe das convenções do gênero, e que está prestes a fazer graça delas.

O tom do começo do filme é leve e cheio de comédia: somos introduzidos às meninas, à história, à casa. Um momento que chama muita atenção é quando Gorgeous explica a história de sua família. Sua tia ia se casar com um médico, que foi chamado para a guerra e foi morto em combate; agora ela vive sozinha em sua casa. Essa história é transmitida em um mini filme que as personagens comentam como se pudessem vê-lo.


Mais uma trope que é subvertida é a do salvador masculino. Em vários momentos, as meninas lembram que o professor delas, Mr. Togo (mostrado como sendo um herói, um ídolo delas) está a caminho da casa, e o filme nos mostra diversos momentos em que ele se dirige para lá. No entanto, a última vez que ele aparece é em uma banca de frutas, totalmente perdido.

Hausu é cheio de momentos como esse, onde a estrutura do filme parece brincar com as expectativas do espectador, de gênero e dos próprios limites audiovisuais impostos.

A partir do segundo ato (após a chegada das meninas na casa) os elementos de comédia começam a se fundir com o terror. A justaposição de imagens contrastantes em tons de comédia / terror é muito utilizada nesse filme, e faz com que ambas tornem-se muito mais efetivas e memoráveis. Em muitas cenas nessa parte do filme, quando algo aterrorizante acontece, é cortado com algo engraçado. O efeito não é a confusão, mas a acentuação do terror e da comédia na mesma medida.


A criação do tom de Hausu foi muito cuidadosa. Ao criar a casa do filme, o diretor (e co-escritor do roteiro) levou em conta a opinião de crianças e dele mesmo quando criança sobre o que os assustava. O resultado é uma casa velha e abandonada, um piano canibal, um gato que sempre está espreitando, e um lugar isolado, longe de tudo. Hoje, isso parece batido, mas em 1977, esse conceito ainda era pouco conhecido fora da literatura.

E mesmo intercalando o tom de terror minuciosamente montado, os momentos de comédia clichê e os momentos violentos, Hausu consegue casar muito bem todas essas coisas em montagens frenéticas cheias de efeitos visuais computadorizados e práticos.

E em sua conclusão, Hausu é uma história melancólica, carregando uma mensagem de amadurecimento, identidade feminina (que se mantém extremamente atual até nos dias de hoje) e sobre o futuro do Japão pós-guerra.


Hausu é um filme estranho, barulhento e colorido que certamente vai prender a atenção de quem decidir assisti-lo, seja por sua apresentação visual única, ou seu enredo maluco, há muito para ser apreciado aqui.


Escrito por Fernando Cazelli

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