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Hayao Miyazaki e a Subversão dos Papéis Tradicionais de Gênero

Na edição do Oscar de 2003, desbancando filmes da Disney e Pixar, Sen to Chihiro no Kamikakushi, A Viagem de Chihiro leva o prêmio por melhor animação, e é com este filme que o Studio Ghibli inaugura o sucesso no Ocidente.


O idealizador do studio e diretor de Chihiro é o japonês Hayao Miyazaki, conhecido por ser o carro forte do Studio Ghibli, tendo lançado diversos filmes, todos sendo bem recebidos e se tornando queridos pelos espectadores. E o que tem de tão especial nestes filmes? Além de manter a tradicionalidade da animação (Miyazaki se recusa a usar artifícios digitais), as histórias tem um teor de magia, inocência, relação afetuosa com a natureza, amor, e a característica principal: personagens protagonistas femininas.


Não é segredo que nas histórias a maioria dos personagens principais são personagens masculinos, onde as femininas são suportes para eles ou pares românticos. Atualmente com as discussões sobre igualdade de gênero, feminismo e representatividade, isso vem mudando e vemos protagonistas femininas fora do convencional como a capitã Marvel, a princesa Elsa de Frozen ou a própria Mulher-Maravilha.


‘’Muitos dos meus filmes têm fortes protagonistas femininas, corajosas, meninas autossuficientes que não pensariam duas vezes antes de lutar pelo que acreditam com todo o seu coração. Elas precisarão de um amigo ou um defensor, mas nunca um salvador.’’ (Miyazaki em entrevista sobre Mononoke Hime.)

Miyazaki vem desde a década de 80 trazendo histórias com meninas e mulheres que além de fortes, determinadas e corajosas, tem uma característica essencial em comum: são humanas. Em seus filmes, o diretor não trabalha com maniqueísmo e vilãs, e sim pontos de vista e antagonistas. Os enredos não se baseiam na heroína que deve vencer o vilão e assim restaurar a paz, mas na construção e crescimento das personagens, que por meio de equilíbrio conseguem resolver as situações nas quais são postas. Elas são reais porque são mostradas até em seus momentos ordinários.


Por conta disso, as personagens principais são crianças ou adolescentes não sexualizadas. E apesar de serem filmes para todas as idades, a intenção de Miyazaki é que os longas sejam vistos por crianças, que são a principal inspiração para seus personagens.


''Nos meus filmes para crianças eu quero expressar, antes de tudo, a ideia que o mundo é um lugar profundo, multifacetado e lindo. Eu quero dizer para eles o quanto eles são sortudos por terem nascido nesse mundo'' (Entrevista de Hayao Miyazaki ao Japan Quaterly)

Nas personagens que vivem na infância, vemos um mundo de magia e idealização, as adolescentes são apaixonadas, impetuosas, sinceras e inocentes, mas sempre dispostas a crescer. As adultas são poderosas e sábias. Existem personagens mães, que em vez de cuidar da casa e viver pelo filho e marido, trabalham arduamente, assim como existem adultas que não escolheram esse caminho e vivem sua vida como querem sem ceder às expectativas da sociedade.


A partir daqui faremos uma análise sobre a construção das personagens com a intenção de destrinchar suas personalidades e ações, e descobrir o porquê das personagens de Miyazaki serem exemplo no que diz representatividade e empoderamento feminino. Os filmes analisados serão Nausica do Vale do Vento (1984), Castelo no Céu (1986), Serviço de Entregas da Kiki (1989), Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chihiro (2001) e O Castelo Animado (2004).

Protagonistas dos filmes de Miyazaki. Da esquerda para a direita, Kiki, Sophie, Chihiro, San, Nausicaa e Sheeta.

ATENÇÃO: O POST CONTERÁ SPOILERS SOBRE OS DEVIDOS FILMES!


Nausicaa: A princesa do vento

Nausicaa foi o segundo filme de Miyazaki, mas fez tal sucesso que tornou possível a abertura do Studio Ghibli, junto com o diretor Isao Takahata. Na década de 80, um novo subgênero de shojo (estilo de mangá e anime direcionado para meninas) vinha sendo difundido, o mahou shojo (princesas mágicas), onde as protagonistas eram garotas com poderes mágicos. Apesar de heroínas, elas tinham característica típica de shojo, garotas ultra femininas que lutam contra o mal e por causas como amor, paz, e esperança, aprendendo assim o valor da amizade. Nausicaa irá quebrar esse estereótipo se mostrando uma das mais corajosas heroínas, onde seu gênero não a impede em nenhum momento.


É um longa com as principais características do Miyazaki, protagonista feminina, elementos fantásticos, apelo a necessidade da harmonia humana com o meio ambiente e ambiguidades. Vamos explorar a partir daqui a vida e o mundo da princesa do vale do vento.


No filme, a humanidade quase foi dizimada por uma guerra conhecida como 7 dias de fogo. Ele se passa mil anos após esse evento, onde a maior parte do ar e da terra são tóxicos, e neles só vivem a fauna e a flora que se adaptou a esse veneno, principalmente os ohmus, larvas gigantes que dominam esses territórios conhecido como Mar de Corrupção. Em algum lugar desse mundo existe o vale do vento, comunidade que sobrevive nesse cenário pós apocalíptico usando a força do vento, e a princesa do vale é nossa protagonista Nausicaa, que procurar entender como funcionam os organismos que vivem no mar de corrupção. Para restaurar a fé e esperança nas pessoas, existe uma lenda de um homem vestido de azul que virá ao mundo em um campo dourado, e ele restaurará a paz na humanidade.


Como citado antes, os filmes de Miyazaki não têm soluções simples. Nausicaa não vai acabar com o mar de corrupção e os ohmus, para assim prover uma boa vida para os humanos. Um dos pontos interessantes no trabalho do diretor é que ele não torna o diferente como inimigo, e Nausicaa sabe isso. Sua habilidade de compreender faz com que ela alcance o equilíbrio, um mundo onde humanos e ohmus possam viver em harmonia. Um dos motivos de Miyazaki usar personagens femininas, é porque ele acredita que essa fluidez e capacidade de compreender é uma característica predominante feminina.


Nausicaa não é uma protagonista que derrota o oponente, mas que entende, ou aceita. Ela é alguém que vive numa dimensão diferente. Esse tipo de característica é mais feminina do que masculina, de acordo com o diretor.


Há um personagem masculino no filme, Asbel, que irá ajudá-la em sua jornada, mas sem apelo romântico ou algum tipo de tensão sexual, característica comum nos animes quando os personagens são de sexo oposto.


Outra personagem feminina é a general Kushana, antagonista do filme. Ela é líder do exército de uma nação que pretende eliminar o mar da corrupção por meio das armas que destruíram o mundo um milênio atrás. Como dito antes, não existe a questão do bom ou mau em Nausicaa. Kushana é uma mulher que quer salvar seu povo custe o que custar, pois carrega as cicatrizes da destruição dos ohmus (parte do corpo dela é robótico). Assim como Nausicaa é ar, Kushana é fogo, contrapondo a inocência de Nausicaa. Elas não se odeiam, se respeitam apesar das diferenças, e após Nausicaa salvar o vale, Kushana entende que estava errada, e é interessante notar que ela não é presa nem punida, simplesmente vai embora e volta para sua terra.


Ao final do filme, nos é revelado que Nausicaa era o guerreiro da profecia. Existe um homem no filme chamado Yupa, um viajante e destemido guerreiro, então é natural que o povo esperasse que ele fosse o salvador. Mas é nossa heroína que se torna a salvadora da humanidade. Assim, o diretor inverte cuidadosamente o mito heroico, tradicionalmente centrado no personagem masculino. Por meio de auto sacrifício, a princesa do vale desafia o perigo e renasce.

Princesa Nausicaa como o herói da profecia

A lendária cidade no céu:

O primeiro filme oficial do Studio Ghibli foi lançado em 1986 com o título Tenkû no shiro Rapyuta, ou Laputa: Castelo no Céu. Conta a história do reino flutuante misterioso de Laputa, onde só quem possui o cristal pode ir, que é no caso nossa heroína Sheeta, a princesa de Laputa.


Sheeta é uma princesa diferente da anterior. Enquanto Nausicaa tem entre 17 e 20 anos, é forte e destemida, Sheeta tem 14 e é tímida, retraída e desengonçada, porém é corajosa, característica principal das protagonistas. Em Castelo no Céu, a relevância do personagem masculino será maior, onde Sheeta terá um companheiro que vai ajudá-la e resgatá-la. Mas ele não é visto como um salvador, nem é um par romântico de Sheeta. Romance não é uma característica essencial nos filmes.


"Me tornei cético da regra não escrita de que só porque um garoto e uma garota aparecem juntos, deve haver romance. Em vez disso, quero retratar uma relação um pouco diferente, uma em que os dois se inspirem mutuamente para viver, se eu for capaz, então talvez, fique mais perto de retratar a verdadeira expressão do amor." (MIYAZAKI, Starting Point, pág. 250)

Outro personagem masculino relevante é o vilão, Muska. Diferente de Kushana que era uma antagonista ambígua, Muska é claramente o mau. Ele quer sequestrar Sheeta para roubar o seu cristal e conseguir chegar à Laputa para roubar seu poder. Até mesmo sua aparência remete à de vilão anulando qualquer chance de simpatia com o personagem.

Kushana e Muska

Como citado anteriormente, o maniqueísmo é mais atribuído aos homens, enquanto as mulheres representam fluidez. Diferente do filme anterior, Sheeta e Pazu são os vilões que devem derrotar Muska para salvar Laputa. Num enredo comum isso seria o normal a acontecer, o mocinho derrota o vilão, adquire o amor da princesa e vira o rei da ilha. Mas estamos falando de Miyazaki que nunca procura soluções simples. Ao chegar na ilha, Sheeta e Pazu notam que Laputa está morrendo, e que o cristal já não provê energia o suficiente. Então, quando confrontados com Muska, Pazu em vez de matá-lo (ele tinha uma arma) ele e Sheeta falam as palavras para destruir, e assim salvar a ilha de seu sofrimento, que é um organismo vivo. Nisso eles se sacrificam e Muska morre na destruição.


Como estamos falando de mulheres, impossível não tocar no nome de uma das mais notáveis do filme, Mama Dola. Ela é uma senhora líder dos piratas do ar, que também tentou sequestrar Sheeta. Porém é completamente diferente do vilão Muska. Ela, assim como Kushana, se propõe a ouvir e a compreender o que Sheeta tem a dizer, chegando até mesmo a ajudá-la. Nota-se que ela não é má, e que apesar de trabalhar em prol dos seus objetivos luta por aquilo que acha certo.


Ao final, Sheeta, que era tão frágil se mostra uma menina diferente disposta a morrer por aquilo que acredita. Essa mudança na personagem é notada após Muska atirar em suas tranças e arrancá-las, deixando Sheeta com cabelo curto. O cabelo tem uma representação importante nos filmes. As personagens de cabelo curto são as mais maduras e crescidas, enquanto as de cabelos presos estão passando por esse processo. Quando a personagem tem cabelo grande e ele é cortado há o significado de amadurecimento além de romper com a feminilidade, normalmente atribuída aos cabelos longos.

Sheeta no começo do filme com cabelo longo e ao final do filme, de cabelo curto.

Obviamente Sheeta é uma princesa diferente da anterior, não tendo a força física da outra nem sua impetuosidade. Mas é determinada e se bota em pé na frente de uma arma para defender aquilo que protege. Miyazaki mostrou que até mesmo uma menina tímida e passiva pode superar seus medos nos piores momentos e usá-los para amadurecer.


O voo de Kiki:

O quarto filme do Studio foi lançado em 1989, Majo no Takkyūbin, ou O Serviço de Entregas da Kiki. O longa contém presença de elementos sobrenaturais mas não se trata de uma épica aventura. É sobre pequenos acontecimentos que irão fazer com que a personagem principal tenha que enfrentar seus medos;


Aos 13 anos toda bruxa deve se tornar independente e encontrar uma cidade onde poderá prestar seus serviços, com essa mentalidade, a bruxa Kiki sai do seio da família para se descobrir em uma cidade grande e desconhecida que não vai parar por ela ou atender aos seus caprichos (um exemplo é a cena onde ela está sobrevoando muito baixo e atrapalha o tráfego de carros, então o policial a decide multar). Desanimada, Kiki encontra uma mulher chamada Osono, dona da padaria que a oferece um quarto e apoia seu sonho: abrir um serviço de entregas.


O desenrolar do longa é marcado pelas entregas e encontros de Kiki. Em um ponto do filme, ela sente a magia enfraquecer, e não consegue mais usar a vassoura para voar, logo, não pode continuar o serviço de entregas. Essa situação é fruto do medo e insegurança de Kiki, que apesar de independente, não deixa de ser uma garotinha de 13 anos. Em uma das cenas ela para em frente uma loja de roupas e fica desejando sapatos e vestidos bonitos, em outra ela sente uma pontada de inveja e tristeza ao ver meninas de sua idade juntas usando roupas coloridas, enquanto sua única roupa é um vestido preto, a cor das bruxas.


Apesar da crise ser marcada pelo enfraquecimento da magia, é um momento que toda menina enfrenta na transição da infância com a adolescência. Medo de não ser boa ou bonita o suficiente, receio de estar fazendo as coisas erradas e de ficar sozinha. Porém, Kiki não está sozinha, e serão mulheres maduras ou experientes que a ajudarão a superar essa fase. A padeira Osono em nenhum momento desacredita do potencial de Kiki, sempre a ajuda e reconhece seu trabalho, nunca a tratando como criança. Numa cena do filme, Kiki é convidada para uma festa e se queixa para Osono por não ter uma roupa para ir à festa, em um filme comum a senhora iria arrumar um belo vestido para ela, mas Osono simplesmente diz ''Não tem problema, o preto destaca a beleza de uma menina''.


Outra mulher é Ursula, uma jovem desenhista que está passando as férias de verão numa cabana no meio da floresta para pintar. Ela é autêntica e desde seu primeiro encontro com Kiki, a bruxinha a admira por sua capacidade de pintar e por se dar bem com os animais. Quando Kiki está triste por conta de sua mágica, ela pergunta a Ursula o que ela faz quando fica sem inspiração para pintar, e Ursula responde que ela para pôr um tempo e procura inspiração, ou que não tenta copiar ninguém e busca alcançar seu próprio estilo, e acalma a garotinha ao dizer que é normal se sentir assim.


Por último, temos a Madame, uma senhora que vive com sua governanta Bartha numa grande casa. O primeiro encontro das personagens foi quando o serviço de entregas foi solicitado pela Madame. A senhora é uma personagem sozinha e que se sentiu feliz com a doçura e gentileza de Kiki. Quando Kiki está triste, Madame novamente a telefone, e faz uma surpresa para Kiki, que é recebida com um bolo e palavras de carinho. Um gesto simples, mas suficiente para quem está se sentindo em solidão.


Ao final Kiki prova seu valor, mais do que para os outros, mas para si mesma, e salva seu amigo Tombo de uma queda mortal. É interessante notar que ela não monta na vassoura e voa de vez, mas cai várias vezes, e não consegue voar em linha reta. Além disse, seu gatinho Jiji mia em vez de conversar com ela como sempre fazia. Isso é um sinal de que apesar de ter superado um obstáculo, Kiki ainda tem um longo caminho.


Nos créditos finais aparecem algumas cenas de sua nova vida, seu negócio de entregas expandiu, ela fez novos amigos, e uma hora enquanto olha na vitrine de uma loja várias roupas, uma garotinha passa ao seu lado usando um laço vermelho na cabeça e um vestidinho preto, a roupa de Kiki.


Serviço de Entregas da Kiki é um filme simples sobre garotas, cujo o diferencial entre Kiki e outras meninas é apenas a magia. Assim como as outras personagens, ela não desiste apesar de chorar e se desanimar. Miyazaki quer mostrar que é normal se sentir impotente ou pior que alguém, mas que cada um tem seu próprio valor e sua força. E é isso que fez Kiki levantar voo novamente.

Kiki impressionada com o talento de Ursula.

A Princesa dos Espíritos

No ano de 1997 Miyazaki lança Mononoke Hime ou Princesa Mononoke, filme que consagrou o Studio Ghibli como maior estúdio de animação do Japão. Foi um grande sucesso mundial arrecadando aproximadamente 158 milhões de dólares, e a maior bilheteria do Japão até a estreia de Titanic. É considerado, junto com Neon Genesis Evangelion, o maior anime da década de 90.


Em Princesa Mononoke Miyazaki volta as suas origens, nos proporcionando uma aventura épica com grande apelo à preservação do meio ambiente, cenários estonteantes e personagens profundos e cativantes. Mononoke Hime se passa em um período feudal, onde deuses dominavam a floresta e o mundo dos espíritos estava diretamente conectado ao mundo real.


Um aspecto diferenciado é o protagonista, Ashitaka. Ele é o príncipe de uma vila, que após ser atacado pelo Tatarigami (criatura mítica japonesa), parte em uma aventura rumo à floresta do shishigami, floresta do deus veado, a fim de ser curado, visto que a maldição dada pelo tatarigami é mortal.


Chegando na floresta, Ashitaka encontra nossa princesa dos espíritos, uma garota chamada San. Ela foi abandonada pela família quando era apenas um bebê, sendo acolhida e criada pela deusa mãe loba Moro e seus dois filhotes. Sabendo disso, podemos dizer que San é a personagem que quebra não só os estereótipos de gênero feminino, como os do próprio Miyazaki.


‘’Enquanto praticamente todas as suas protagonistas, da valente Nausicaa até as garotas curiosas de Totoro, são impressionantes e independentes, elas ainda tendem a ter aspectos de gênero convencionais como a doçura e a coragem, típicas do shojo.’’ (NAPIER, Susan. Anime from Akira to Howl’s Moving Castle. New York: Palgrave Macmillan, 2005. Pág. 238)

San irá quebrar totalmente esse estereótipo. Ela não é a doce Kiki, ou a gentil Nausicaa. San é bestial, violenta, impetuosa. Ela é a guardiã da floresta, vive por ela e está disposta a morrer e matar por ela. Na primeira cena que Ashitaka a vê, ela está sugando veneno da ferida de sua mãe Moro, e olha para ele com a boca cheia de sangue e o manda ir embora. Na hora da batalha ela não luta com graciosidade, luta para matar com uma máscara de guerra. Em algum momento do filme, Moro fala para Ashitaka ''Ela não pode ser humana, e não pode ser lobo. Minha pobre, feia, e amada criança...você pode salvá-la?''.

San após sugar o veneno da ferida de Moro e San com sua máscara de batalha.

San é selvagem e por isso não é a mediadora do equilíbrio entre floresta e homens. Em Princesa Mononoke pela primeira vez quem vai ser o personagem fluido é o próprio Ashitaka, porém, isso acontece justamente para tratar a complexidade dos objetivos e relação entre San e Lady Eboshi.


Ao chegar na floresta Ashitaka percebe que há uma cidade em ascensão ali, a cidade de Tatabara, cujo a dominante é a enigmática Lady Eboshi, uma das mulheres mais complexas de Miyazaki. Temos aqui uma líder mulher de uma cidade na época feudal, onde pela hierarquia japonesa era um lugar inalcançável para mulheres. Eboshi quer expandir a cidade e para isso ela precisa invadir a floresta, sendo impetuosa não mede esforços para isso. Em um primeiro momento a personagem dela causa um sentimento de raiva por querer destruir a floresta, mas ao mesmo tempo em que ela se mostra uma líder com mão de ferro, ela é também caridosa e sente muita empatia pelas pessoas da cidade. Por exemplo, o trabalho mais importante de Tatabara é manter a fornalha sempre acesa, e quem trabalha lá são prostitutas que haviam sido marginalizadas pelas sociedades. Em uma parte do filme Ashitaka a confronta pela destruição da floresta e deseja matá-la, mas um leproso suplica para que ele não faça isso, porque Eboshi foi a única que os acolheu e tratou de suas feridas em vez de descartá-los ou os tratar como aberrações.


Nota-se que não existe herói, vilão, nem mesmo antagonista. San representa a floresta e Eboshi os homens, elas encarnam os anos de luta e intrigas entre esses dois elementos. A história é complexa demais para se tomar um julgamento e a solução final deixa aberta questões como culpa, inocência, bom e mau. Não há vencedores. No final, cada uma das mulheres percebe que nenhuma vai abrir mão daquilo que protege, a floresta e a cidade, mas elas entendem que precisam entrar num acordo para evitar desastres maiores. San salva Eboshi de morrer no incêndio da floresta, então ela demonstra grande respeito e gratidão por San, apesar de não ter afeição entre elas.


Ashitaka decide morar na cidade para ser o mediador entre os interesses da cidade e da floresta. Ele claramente influencia San que se torna menos nociva à presença dos outros inimigos, mas sempre respeitando os limites dela. O filme deixa claro que Ashitaka se apaixonou por San com grande probabilidade do sentimento dele ser correspondido.


Mas vimos que romance nunca foi a prioridade de Miyazaki, e San não é a garota que vai abandonar tudo para viver com aquele que ama. Como disse antes, a vida dela pertence a floresta e ela a escolhe. Na despedida, San fala com Ashitaka que ele significa muito para ela, mas que jamais perdoará os humanos. Ele compreende e diz que vai ir vê-la sempre que puder.


Mononoke Hime é revolucionário ao apresentar mulheres fora do convencional de animes. Estamos falando de personagens com defeitos e trevas nos corações. Elas não têm a inocência presente nas outras personagens, e apesar de passar por um certo amadurecimento e mudança de opinião, são personagens com caráter formado. A história não é sobre o crescimento da personagem principal, é uma história sobre ódio, guerra, morte e redenção.

Luta entre San e Eboshi, terra contra fogo.

A aventura de Sen e Chihiro no mundo dos espíritos:

Lançado no Japão em 2001, Sen to Chihiro no Kamikakushi, ou A Viagem de Chihiro não é só o filme mais prestigiado do Studio Ghibli, assim como é considerada uma das animações mais influentes de todos os tempos. No Japão o longa arrecadou 228 milhões de dólares (se tornando o mais bem-sucedido em toda a história do cinema japonês) enquanto no exterior arrecadou 269 milhões de dólares. Além de ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2002, e ser o primeiro filme da história de língua não inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Animação em 2003, como citado anteriormente.


O filme conta a aventura de Chihiro, uma garota de 10 anos que está se mudando com seus pais. No meio do caminho os pais entram num tipo de portal e ela os segue. Do outro lado do portal, eles encontram uma cidade vazia, com uma feira cheia de comida.


Os pais são seduzidos pelo cheiro dos alimentos e comem sem parar, enquanto Chihiro está cautelosa e com medo. Então os pais dela se transformam em porcos, e ao passo que a noite vai chegando as criaturas místicas daquele lugar começam a aparecer.


Chihiro conhece um menino chamado Haku que a diz que para viver lá ela terá que trabalhar na casa de banhos da bruxa Yubaba, e ela nunca deve esquecer seu nome. Ao entrar na casa a bruxa lhe tira o nome e passa a chamar Chihiro de Sen.


Chihiro é outra personagem diferente das demais. Como vimos anteriormente, as meninas do filme são determinadas, corajosas e se sacrificam pelos outros. Chihiro é medrosa, mimada e egoísta. A mudança de nome não é mero acaso do enredo, é o renascimento de Chihiro. O longa é uma aventura focada no amadurecimento da personagem que vai precisar de abrir mão dos próprios luxos para aprender o que lhe é necessário e valioso.


Apesar de ser passar na época atual e ser provido de elementos místicos, A Viagem de Chihiro é muito diferente de Meu Amigo Totoro. O universo de Chihiro é menos infantil, mais melancólico, cheio de criaturas sobrenaturais horrendas e não tão simpáticas quanto Totoro. Não foi dada escolha à Chihiro, ao trabalhar na casa de banho ela trabalhou como adulta e conviveu com adultos. Sua pureza, vontade de encontrar os pais e a fagulha do amor (desde o primeiro encontro com Haku é perceptível a intimidade da relação deles) a ajudaram a enfrentar os desafios. As motivações são inocentes por se tratar de uma menina de 10 anos, mas os elementos são sombrios: pais transformados em porcos, uma bruxa que controla tudo, um garoto que se transforma em dragão e o medonho e misterioso Sem Face.

Da esquerda para a direita Chihiro sendo confrontada por Yubaba e Chihiro com o Sem Face

Ao final do filme, Chihiro não derrota Yubaba, fica com o Haku e volta para casa. Ela, assim como as outras personagens, se torna madura o suficiente para não cair em maniqueísmos e ódio. Yubaba a leva para um chiqueiro e pergunta qual dos porcos são os pais dela, e Chihiro responde que eles não estão lá, e de fato não estão.


Completando essa última tarefa, os pais se livram da maldição e ela pode voltar para casa. Chihiro abraça Yubaba (afinal, ela foi uma peça essencial em seu desenvolvimento então para Miyazaki não faz sentido torná-la como a vilã da história), os seres que conheceu lá, e se despede de Haku, com a promessa de que um dia vão se ver de novo.


Ela abandona o nome Sen porque sua aventura tornou possível seu renascimento. A Chihiro do final é cheia de vida, esperança e força, diferente da personagem mal-humorada e medrosa do começo.


A pequena Chihiro cativou o mundo inteiro. Ela é uma personagem humana não idealizada, não vista como salvadora ou poderosa. É uma menina comum que conquistou aquele mundo místico através da sua força, e por isso ela é tão viva e inspiradora.


O mago e a velha no castelo ambulante:

Howl no Ugoku Shiro, O Castelo Animado, lançado em 2014, até aqui é provavelmente a obra mais diferente de Miyazaki. Não se trata de um roteiro original, mas sim de uma adaptação de um livro Ocidental lançado em 1986 pela escritora Diana Wynnes Jones.


Neste universo conhecemos Sophie, uma jovem de 18 anos que trabalha numa loja de chapéus, caçula de uma família de três meninas. É uma jovem tímida, porém sonhadora. Em uma de suas caminhadas ela conhece Howl, que futuramente iremos saber que se trata de um bruxo procurado e famoso por ser galanteador. No mesmo dia, quando Sophie chega em casa à noite, é confrontada por uma mulher vestida de preto conhecida como A Bruxa do Vale. Ela joga uma maldição na Sophie que a transforma numa velha, e ela não pode falar da maldição com ninguém. Na busca de Sophie em encontrar um meio de se curar da maldição, ela encontra um castelo andante, cujo proprietário é o mago Howl. Ela começa a trabalhar lá e vai descobrindo os pecados de Howl e segredos do castelo.


Sophie se mostra uma mulher madura e fica responsável pela manutenção do castelo. Lá ela conhece Calcifer, um demônio de fogo que mantém o castelo vivo, e que promete que a libertará da maldição caso Sophie o liberte. Ao passo que Sophie se torna íntima do castelo e de seus habitantes, ela percebe a dor e a solidão de Howl. Enquanto ela se torna cada vez mais ativa, ele se afunda em suas trevas.


O próprio Howl quebra estereótipos de gênero. Ele tem uma beleza muita feminina, corpo magro e cabelos longos. Normalmente nos animes os garotos mágicos são representados por personagens tímidos, jovens e desastrados, mas Howl é sensual, ousado, experiente e poderoso.


A maldição de Sophie é necessária para o amadurecimento da personagem, pois ela aprende a adquirir confiança e a coragem. A transformação a faz aprender os poderes da velhice, a realiza que todos podem, e fazem, o que quiserem sem se preocupar com as consequências.


Saindo da premissa dos filmes anteriores, o elemento principal em Castelo Animado é a relação entre Howl e Sophie. Enquanto Sophie se transformou em uma velha, Howl se transforma em um pássaro negro. Ele, apesar de parecer feliz, se mostra um personagem cheio de dores e medos. No começo do filme ele salva Sophie, mas no decorrer, quem o salva é a Sophie. Descobrimos ao final do filme que Howl deu seu coração a Calcifer em troca de poderes mágicos, e Sophie o pega de volta e devolve a Howl.


Quando Sophie é curada da maldição, seu cabelo continua prateado. E ela passa a usá-lo curto, sacrificando sua feminilidade e passividade em prol de determinação e coragem. Vimos anteriormente a importância do cabelo das personagens, então a cor e o comprimento mostram claramente a transformação de Sophie após passar pela maldição e enfrentar a guerra.

Ao decorrer do filme Sophie e Howl se apaixonam, e pela primeira vez em um filme do diretor, acontece um beijo. É um beijo com ternura sem apelo sexual, mostrando o amor e confiança, além da redenção.

Sophie beijando Howl em sua forma bestial.

Seria injusto com a obra dizer que a Sophie luta só pelo amor. Ela se sente responsável por Howl, pelo castelo, por Calcifer, por Markl, o garotinho que vive no castelo, e até pela bruxa do vale, que passa a viver no castelo. O castelo é como uma família para Sophie e ele só permanece unido por sua causa. No fim, a salvadora de todos foi Sophie, com sua paciência, perseverança, empatia e amor.


O diretor prega a igualdade de gênero?

Uma discussão pertinente acerca do universo de Miyazaki é o uso das personagens como empoderadas, fato citado acima. Mas será corretor dizer que Miyazaki tem a intenção de empoderar mulheres ou trazer temas como feminismo à tona? Lembramos que Hayao Miyazaki é um homem japonês nascido no Século XX, que apesar de ter se envolvido em lutas de sindicatos no começo de sua carreira, não se tem registros sobre ele ter se envolvido na luta feminista. Creio que o maior empecilho em declarar o diretor como feminista, é que ele também faz distinção de gêneros. Após analisar seus filmes, percebe-se que homens e mulheres têm papeis diferentes, pois eles têm energias diferentes.


‘’Com a distinção entre as energias dos meninos e energias das meninas, Miyazaki desenvolve duas relações distintas com a tecnologia. Os meninos interagem com os mecânicos e industriais. Todos eles são sobre alavancagem, forças exercidas contra objetos, através de máquinas e máquinas de trabalho. Os meninos lidam com ações diretas em objetos. As meninas, no entanto, estão associadas à telepatia, às telecomunicações e à telecomando, com tecnologias que parecem mágico porque envolvem ação à distância.’’ (LaMarre, Thomas. The Anime Machine. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009. Pág. 80)

A cultura Oriental japonesa é completamente distinta de nossa Ocidental, então não se pode esperar que conceitos nossos sejam trabalhados de forma igual nas obras japonesas. O diretor claramente não é feminista e não está preocupado em tomar partido nisso, ele compreende as mulheres tão capazes quanto os homens, mas diferentes. E isso é ruim? A distinção de gênero feita por Miyazaki não torna as personagens mais fracas, pelo contrário, torna-as mais fortes, porque todo o processo pelos quais elas passam pelos filmes só são possíveis por serem mulheres.


A energia do garoto é destinada ao seu objetivo principal. Com exceção de Howl, em Castelo Animado, a narrativa do personagem masculino é reta. Asbel quer ajudar Nausicaa a impedir a destruição da vila do vento, Pazu se compromete a salvar Sheeta, Tombo quer chamar a qualquer custo a atenção de Kiki, e Ashitaka deseja se livrar de sua maldição. São narrativas diferentes das personagens femininas, onde seu crescimento faz parte da história, logo, há mudança de decisões, ponderamento, é uma estrada curvilínea onde elas estão em constante mudança.

‘’Miyazaki não quer somente acabar com a ideia convencional do feminino, mas também acabar com a noção convencional do mundo em geral. Ao destacar suas personagens femininas e tornando-as firmes, capacitadas e independentes, Miyazaki alivia esses atributos, forçando que o espectador esteja ciente dessas qualidades em um nível de percepção onde um protagonista masculino convencional provavelmente não estimularia. Não é surpresa que suas personagens são fortemente associadas ao ar, porque são as imagens do voo que possibilitam o escape do passado e da tradição;’’ (NAPIER, 2005. Pág. 126)

A ideia das mulheres nestes filmes não são botar homens e mulheres como seres completamente iguais, mas com capacidades transformadoras diferentes. O diretor quebrar os estereótipos antigos de feminilidade, e acabar com as expectativas de gênero convencionais. A maior ferramenta para a mudança na concepção de mundo do espectador é a mulher. Sem a figura da garota, o futuro simplesmente retornaria aos moldes do passado, com velhas tecnologias e velhas formas de organização social, e isso seria a repetição da antiga compreensão do mundo. As animações de Miyazaki são sobre novos mundos, com novos deuses, que assumem a forma de garotas, que são as únicas que podem nos salvar (LaMarre, Anime Machine, 80).


Independente da discussão sobre feminismo, as personagens são inspiradoras, é o tipo de protagonista que as meninas querem ver e os meninos deveriam ver. Representar a mulher no âmbito áudio visual como seres auto suficientes, personagens que tem medo, estão confusas e não são perfeitas, mas onde a jornada vai inspirar coragem e confiança para assim transformar, salvar, remodelar e criar um novo mundo.


Escrito por Marina Rezende

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