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Crítica: LA 92 - Daniel Lindsay e TJ Martin (2017)

Vinte e cinco anos após o veredito do julgamento do caso do espancamento de Rodney King ter causado tumultos pela cidade, cineastas examinam o período tumultuoso através de filmagens nunca antes vistas.

Os acontecimentos de Maio de 92 em Los Angeles são parte de uma história cíclica e cheia de violência e débitos históricos. A história do negro nos Estados Unidos (e igualmente em países que sofreram a escravidão) é longa e banhada por injustiças.

O filme busca desde o começo situar o espectador em um contexto histórico, tendo início em 1965, quando a prisão de um homem negro por policiais brancos na cidade de Watts também causou tumultos pela cidade, pela brutalidade policial. Líderes negros tentam conter a violência do povo, enquanto repórteres e autoridades (todos brancos) tentam entender o que acontece.

Após uma breve explicação do cenário político de Los Angeles, estamos em Março de 91. O caso que deu início aos tumultos é o julgamento dos policiais que espancaram Rodney King: um negro que, após uma perseguição, foi brutalmente espancado, mesmo estando desarmado, sem oferecer qualquer tipo de resistência. Todo o ato foi filmado por um morador local e os policiais foram levados a julgamentos (acusados de lesão corporal grave).


O julgamento dos quatro policiais teve que ser realizado em uma cidade vizinha (pois argumentou-se que o público de LA já estava “infectado” pela opinião da mídia), predominantemente branca.


O resultado foi que todos foram julgados inocentes de quaisquer crimes, saindo dali livres no mesmo dia.

Nesse meio tempo, uma adolescente negra chamada Latasha Harlins foi assassinada em um mercadinho coreano no bairro onde morava. O veredito para a assassina: culpada, mas a juíza não vê necessidade de se aplicar a pena (sei que parece ridículo, mas esse é literalmente o argumento da juíza do caso).


Antes de continuar à análise do filme, é importante entender o que é uma coisa chamada racismo institucional.


O racismo institucional ocorre quando o racismo é manifestado através das estruturas de organização da sociedade e nas instituições. O termo foi criado por dois ativistas dos Panteras Negras em 1967 (link para o estudo aqui).


Em termos mais simples, ocorre quando as instituições da sociedade (a polícia, cartórios, creches, seguridade social, etc.) agem de forma diferente com certos cidadãos quando, na verdade, seus propósitos deveriam ser tratar a sociedade como um todo, sem diferenciação.


A instituição onde isso mais se manifesta, é claro, é na polícia: o maior número de abordagens é feito com pessoas negras, a maioria dos mortos pela polícia é negra, a maioria dos policiais é branca. Mas isso também se manifesta no sistema judiciário (que aliena as castas mais pobres da sociedade com barreiras monetárias), no sistema de seguridade social, bancário, nas ações de governo.

Os casos de King e Harlins têm semelhanças incríveis: ambos foram filmados (mostrando claramente que não houve dualidade nas ações praticadas); praticados por pessoas brancas (mesmo Harlins tendo sido assassinada por uma coreana, havia uma tensão entre os grupos na época); e essas pessoas foram inocentadas pelas instituições que deveriam puní-las.


E o fato de terem sido gravados só iniciava as discussões sobre os milhares de casos que não eram documentados: os espancamentos de outros jovens negros que eram acobertados por outros policiais; os assassinatos nos mercados de outros jovens inocentes.


Durante o julgamento, o documentário é bem claro ao mostrar como as tensões vão aumentando na cidade. Havia um clima de certeza na condenação dos policiais que espancaram King. Havia um clima de confiança na instituição do Judiciário, uma esperança de um julgamento justo.

Talvez o ponto alto do documentário seja o momento em que, em voice-over, são lidos os vereditos de inocência, enquanto são mostradas as reações do público.


Nos dias seguintes, a população negra do lado Sul da cidade começou um tumulto, atacando carros que não fossem dirigidos por negros, atacando lojas que não fossem propriedade de negros, atacando pessoas brancas nas ruas (até repórteres), queimando estabelecimentos e saqueando diversos outros lugares pela cidade.

O pânico se alastrou pela cidade nos dias que seguiram. Os policiais nem ousavam chegar perto desses locais, pois temiam por suas vidas. A resposta da governo federal foi enviar o exército, que chegou tarde demais.


O documentário completa seu ciclo quando decide mostrar uma entrevista de um policial, que chora ao ver o caos que se instalou na cidade. As filmagens utilizadas são poderosíssimas, passando por noticiários da época a filmes amadores.

Em menos de uma semana, 35 pessoas estariam mortas. Negros, brancos, policiais, bombeiros, donos de loja.


O caos que tomou conta de Los Angeles mostrou-se uma das coisas mais destrutivas que eu já vi em um documentário: grande parte da população teve que se armar para se defender nas ruas, um motorista de caminhão, Rodney Denny, é tirado de seu caminhão, espancado, deixado na rua convulsionando, é zombado pelos locais, até que um padre vem prestar auxílio.


O documentário é um estudo profundo sobre a violência.


É sobre como um povo que se viu desamparado pelas instituições rebelou-se, nascendo assim uma das ondas de brutalidade mais incríveis da sociedade moderna.

É sobre como, mesmo nascendo de uma insatisfação justa, a violência tornou uma luta em algo injusto.


LA 92 está disponível na Netflix e eu recomendo muito que assistam. O ponto levantado pelos cineastas é atual, mesmo sem narração ou entrevistas, somente a edição, a música e a estruturação contam uma história que merece ser vista.


É um soco no estômago, mas é um soco que todos nós precisamos levar.


Escrito por Fernando Cazelli

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