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Crônica sobre Cinema Ruim

Quantas vezes na sua vida você pode dizer que presenciou uma obra de arte que impactou sua vida e a forma com que você enxerga, absorve e avalia a arte como um todo? Quantas dessas obras são exemplos positivos dessa arte, e quantos são exemplos negativos?

Pode-se dizer que é um momento de sorte quando nos deparamos com tais obras. Especialmente quando esse encontro ocorre de forma inesperada. A filosofia da arte pós-moderna busca, em suma, subverter o conceito de “arte”, através do questionamento dos limites da arte e suas grandes obras. No mundo da arte plástica, Andy Warhol retratava a cultura de celebridade e o consumismo. No cinema, Pulp Fiction jogava a linearidade do roteiro pela janela. Através dos experimentos da arte pós-moderna, renovou-se o conhecimento da arte: seus limites foram redefinidos, e uma nova era pode nascer.

Minha experiência com “Love Different” (nome em inglês porque não há um lançamento nacional) nasceu do tédio, da procura de algo diferente para assistir, a escolha praticamente aleatória de uma comédia qualquer em uma seleção de “compartilhamentos” pela internet. A promessa de uma comédia, um cartaz horrível, um trailer hediondo, e eu fui convencido.


Uma comédia produzida pela Pureflix, empresa de streaming e produção de filmes evangélicos, famosa pela trilogia “Deus Não Está Morto”, dirigida, escrita e estrelada por Anthony Hackett, Love Different conta a história de Lindsay Walker, uma mulher branca de meia idade, que começa a trabalhar em uma empresa de consultoria que só tem negros. Neque Campbell (Hackett) precisa apresentá-la à comunidade e explicar a cultura para Lindsay para que possam cuidar de um cliente importante.

Uma premissa interessante.

O racismo nos Estados Unidos é o assunto de muitos filmes maravilhosos (Faça a Coisa Certa, 12 Anos de Escravidão, LA 92, etc.), que tratam o assunto com realismo, e que podem ser consumidos por pessoas de muitas culturas que querem se informar sobre a experiência do povo negro nos Estados Unidos em sua história. Love Different definitivamente não é um desses filmes.


O racismo se apresenta no roteiro da obra, mas não de uma forma que questione as ações dos personagens ou as instituições em ação. É impressionante a quantidade de “piadas” que são executadas onde a conclusão é “Oh, pessoas negras fazem X, pessoas brancas fazem Y”.

O filme parece ter um senso sádico de humor, onde mesmo coestrelado por um homem negro (que também dirige e escreveu), cria-se uma tentativa de justificar o racismo através da atrasada lógica de que “racismo não existiria se os brancos e os negros fossem mais amigos”. Esse discurso só faz diminuir as discussões sérias sobre as instituições que causam e se aproveitam do racismo, especialmente em um momento tão importante para a luta contra a segregação racial, o fascismo e a violência policial que ocorrem nesse momento.


Ok, é um filme racista. Mas esse é apenas um aspecto do filme que me faz questionar o cinema como um todo.


São poucas as obras que conseguem ser completamente incompetentes em todos os aspectos de sua confecção. Muitas pessoas já são familiares com The Room, Birdemic, e toda a filmografia de Neil Breen. Na minha humilde opinião, Love Different merece um lugar ao lado dos grandes, em nome do supremo desastre cinematográfico que representa.

Vamos a um exercício simples: quais são os grandes componentes de um filme? Temos atuação, edição, fotografia, design de áudio, continuidade, música, roteiro, câmeras, entre outros.


Eu consigo dizer com absoluta certeza de que Love Different não consegue ser no mínimo competente em NENHUM dos aspectos que fazem um filme ser considerado como tal.


Cenas mudam de iluminação entre um corte e outro, cortes que não fazem sentido, áudios dublados sem o menor cuidado, figurantes que desaparecem entre cenas, e muitos outros erros muito básicos.

Existe uma certa fascinação com filmes que, de um lado, se levam muito a sério, mas que são totalmente incompetentes em sua execução. É como se observássemos um desastre acontecendo, não devemos olhar, mas não conseguimos tirar os olhos.


O filme tenta transmitir uma mensagem de compaixão racial, amor religioso e comunidade, mas ao assistir a obra, não é possível ignorar o desastre completo que é a execução do que está na tela. É realmente impressionante o nível da produção em Love Different. Eu não quero dar os detalhes dos maiores erros na tela porque, sinceramente, eu espero você assista esse desastre e encontre-os por você.


E foi com Love Different que eu passei a apreciar muito mais os grandes filmes que são executados de maneiras criativas, especialmente quando são produções menores, feitas com menos dinheiro.

Um bom exemplo é o hit cult brasileiro Sinfonia da Necrópole (2014, Juliana Rojas), um musical filmado em sua maioria num cemitério, sobre um aprendiz de coveiro sensível e preguiçoso, que usa seu apertado orçamento para entregar uma experiência única, bizarra e inesquecível.


Por que assistir Love Different então? Se eu posso investir meu tempo em tentar ver 2001 sem dormir, ou Stalker, O Cavalo de Túrin.


Nós tentamos nos cercar de boas obras. Cinema de verdade, feito por pessoas obstinadas que claramente sabem o que estão fazendo. No entanto, a nós, o público, muitos dos desafios de se produzir um filme estão ocultos. Nós, os leigos, não precisamos saber as dificuldades de se capturar o som em O Poderoso Chefão, não temos detalhes sobre o processo de edição de Scarface, ou o dia que Steve McQueen não apareceu no set de Bullit.

Mas todo o processo de se produzir um filme envolve um número infindável de detalhes que podem estragar completamente a obra quando aparecem na tela. Ao nos depararmos com uma obra em que todos os aspectos da produção são falhos, nós, os leigos, conseguimos apreciar o quanto trabalho vai para uma produção que dá certo.


E é claro, há uma certa comédia meta textual em observar um filme com tantos erros como Love Different. É como assistir as gafes de um programa ao vivo, ou rever o 7x1. É a fascinação com o negativo que nos leva a apreciar o positivo.


Assim, como uma grande obra prima pós moderna, Love Different ajudou a aprofundar meu conhecimento sobre a arte do cinema. Talvez essa não tenha sido a intenção dos autores, mas essa é uma discussão para outro texto.


Escrito por Fernando Cazelli

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