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Luz de Inverno (1963) e First Reformed (2017) – Uma análise.

AVISO: essa análise discute com profundidade a história completa dos dois filmes. No texto o filme "Luz de Inverno" de Ingmar Bergman foi tratado pelo seu título original, "Nattvardsgästerna"

“I had this fleeting hope... That everything wouldn't turn out to be illusions, dreams and lies.” (Nattvardsgästerna)

Com a temporada dos Oscars chegando, uma das minhas grandes apostas é First Reformed, dirigido por Paul Schrader. Pouca gente sabe que esse filme é inspirado, entre outros, em um outro filme sueco de Ingmar Bergman de 1963, chamado “Luz de Inverno”, que traz os mesmos temas, mas os trata de uma forma diferente. É por isso que eu venho aqui colocar os dois filmes lado a lado, para demonstrar como o trabalho de grandes diretores influencia histórias que, muitas vezes, poderiam acabar sendo a mesma coisa, mas que encontram voz única pelo uso das técnicas cinematográficas e pelo roteiro.


Do grande diretor sueco Ingmar Bergman (de O Sétimo Selo, Persona, Morangos Silvestres), Nattvardsgästerna é um filme de 1963 que conta a história de um padre em uma pequena cidade sueca que luta com uma crise de fé ao mesmo tempo que um casal procura sua orientação porque o marido tem pensamentos suicidas.


Do grande roteirista americano Paul Schrader (de Taxi Driver, Touro Indomável, Mishima: Uma vida em Quatro Tempos), First Reformed é um filme de 2017 que conta a história de um padre em uma pequena cidade norte-americana que luta com uma crise de fé ao mesmo tempo que um casal procura sua orientação porque o marido tem pensamentos suicidas.


A história dos dois filmes parte da mesma premissa: um padre com problemas de saúde tem uma crise de fé e deve ajudar um jovem casal na sua congregação. Então, vamos à análise de cada um dos elementos que unem esses filme e como eles são tratados de formas diferentes, e o porque de cada uma dessas diferenças.


1. Os Padres

“Can God forgive us for what we’ve done to this world?” (First Reformed)

Em Nattvardsgästerna, o padre é Tomas Ericsson (Gunnar Björnstrand). Por ser um filme sueco, é um homem de poucas palavras, e emoções fortes e cortantes. Ele já começa o filme aprofundado em sua crise de fé (podemos ver em sua primeira interação com o casal, quando ele só consegue falar sobre sua esposa falecida). Vemos Tomas lutando com uma gripe forte, que vai piorando durante o desenrolar da história, que se passa em alguns dias (uma curiosidade: Gunnar Björnstrand estava mesmo com uma gripe durante a filmagem).


Em First Reformed, o padre é Ernst Toller (Ethan Hawke). A igreja sob seu cuidado é vista como uma igreja para turistas (até o nome do filme é uma referência à importância meramente histórica da igreja em si), com pouca importância ante à igreja moderna Abundant Life. O filme conta com alguns momentos de narração, que são as entradas no diário do padre, onde podemos ver sua desilusão crescendo até virar uma crise de fé (alimentada por seus próprios traumas e desilusão) que vai se manifestando de formas cada vez mais radicais. Toller luta contra uma doença de estômago e alcoolismo.


As diferenças aqui são que em Nattvardsgästerna não vemos o caminho do padre até a sua crise. Quando iniciamos a história, já o vemos questionando os motivos de ter virado um clérigo, quando em First Reformed, temos um personagem que inicia o filme demonstrando uma insatisfação que lentamente, através da sua empatia pelo casal que busca sua ajuda, vira a mesma crise de fé do padre Tomas.

Ambos têm a mesma história de pessoas queridas que morreram alguns anos antes da história (para Tomas, é sua esposa; para Toller, é seu filho), lutam com problemas de saúde, e demonstram ter lutado por algum ideal quando jovens.


A crise de fé que atinge os dois difere um pouco. Quando em Nattvardsgästerna Tomas luta contra o silêncio de Deus ante suas preces e seu sofrimento (“O Sofrimento é incompreensível, então, não precisa de explicação”), a perda de sua esposa o afetou demais e após, o conforto de Deus foi se tornando inútil ante as injustiças do mundo. Para o Reverendo Toller, sua crise encontra a catálise na ideologia do marido do casal que o procura: ele não quer mais viver porque a humanidade está acabando com o planeta. O Reverendo começa a ler sobre esse assunto e, eventualmente, se pergunta se algum dia Deus perdoará a humanidade pelo que fez com a sua criação. Mesmo já sendo um homem perturbado pela perda de seu filho na guerra, vemos sua frustração tomando forma durante o filme.

2. O Casal e o Sub-Plot Romântico

“You think what we did together was a sin? I’ve seen enough sin to know the real difference.” (First Reformed)

Aqui, o encontro de ambos os personagens principais com os casais que buscam orientação espiritual é a catálise para o resto da história: as crises existenciais que motivam os roteiros iniciam-se com conversas com os maridos suicidas, que não vêem mais sentido em viver no mundo atual.


Em Nattvardsgästerna, o casal Persson é formado por Karin (Gunnel Lindblom), grávida do terceiro filho do casal e Jonas (Max von Sydow), um pescador local. Após a missa que abre o filme, Karin procura Tomas, e diz que precisam conversar em particular, e Tomas pede a Jonas que retorne mais tarde. Tomas expressa suas preocupações com a China, e uma eminente Guerra Nuclear.


Em First Reformed, o casal é formado por Mary (Amanda Seyfried) e Michael (Phillip Ettinger). Mary está grávida do primeiro filho do casal e Michael, um ativista do meio-ambiente, deseja que a gravidez seja interrompida, pois não há mais sentido em criar uma vida para um mundo que está fadado à escuridão, onde corporações só contribuem com a destruição do meio-ambiente e a desvalorização da vida humana (até o caso da missionária americana assassinada no Brasil Dorothy Stang é mencionado).


Os personagens são muito diferentes no sentido de que em Nattvardsgästerna, temos um casal mais recluso e que já tem filhos, quando em First Reformed, o casal é jovem, envolvido com ativismo moderno, e somente Mary é religiosa, enquanto Michael não parece religioso.

Essa mudança talvez possa ser atribuída à modernidade de First Reformed: nos anos 60, a grande preocupação era a Guerra Fria e o uso de armas nucleares, e em 2017, a grande preocupação é com o meio-ambiente, aquecimento global e o papel das grandes corporações nesse ambiente.


Um fator que une bastante os dois filmes é a primeira conversa que os homens têm em particular nos dois filmes: o padre não consegue parar de falar sobre si mesmo, e isso vira um ponto de culpa mais tarde. É por esse mesmo diálogo que ficamos sabendo muito sobre o personagem de Tomas e Toller, como que eram casados, que eram ativos em suas comunidades, que eram ativistas e que Toller é um perdeu um filho na guerra. Em Nattvardsgästerna, o próprio Tomas chama atenção para isso quando Jonas vai embora no meio da conversa, enquanto Toller escreve sobre isso no seu diário, ponderando sobre o que poderia ter falado de diferente naquele momento.


É a partir daí que First Reformed começa a tomar um rumo totalmente exclusivo e inesperado: uma ligação de Mary chama o padre Toller para sua casa, onde ela revela que Michael fez um colete-bomba, e que não sabe o que ele pretende fazer com isso. O radicalismo de Michael é o que faz com que Toller começe seu caminho para a sua própria crise existencial, e a se envolver mais com Mary.


O sub-plot romântico esta presente nos dois filmes, mas de formas completamete diferentes.


Em Nattvardsgästerna, entendemos que Tomas já se envolveu com Märta, uma funcionária da escola infantil local que frequenta a igreja, mas se identifica como atéia. Märta idolatra Tomas e o relacionamento breve que tiveram, que Tomas claramente não corresponde.

Em First Reformed, após o suicídio de Michael, o padre Toller fica muito próximo de Mary, seja pelo seu senso de dever ou pela empatia. Essa relação evolui por força dos dois, culminando na cena final do filme.


Essa história romântica envolvendo os padres serve como uma oposição às crises existenciais que os dois sofrem: será que a nossa percepção de que estamos sozinhos no Universo, de que um Deus que ora idolatramos agora se mostra silecioso e distante, pode ser aplacada com um amor honesto, mundano e caral?


Esse sub-plot romântico ocupa quase metade de Nattvardsgästerna, com uma montagem longa de Märta lendo uma carta para Tomas explicando a relação dos dois. E após o suicídio de Jonas, Märta o acompanha, e serve de companheira para seus monólogos e o questiona em diversos momentos. É aí que vemos que uma grande parte do foco de Nattvardsgästerna é em responder se a crise de fé do padre Tomas pode ser acalmada com o amor irrestrito de Märta.


Já em First Reformed, a relação de Mary e Tomas toma segundo plano, ocupando muito menos tempo da duração do filme, mas culminando na mesma questão psicológica levantada. Mesmo sendo muito próximos, e após Toller ter decidido tomar a sua ação radical, ele quer proteger Mary, e a sua aparição nos últimos momentos do filme o faz questionar sua missão.


Essa é parte da questão espiritual que ambos os filmes levantam. E ambos respondem de formas diferentes, com resultados diferentes mas que, na essência, tentam dar a mesma lição existencial.

3. A História

“The moments before he died, Christ was seized by doubt. Surely that must have been his greatest hardship? God's silence.” (Nattvardsgästerna)

Pouca coisa realmente acontece em Nattvardsgästerna. Os filmes de Bergman sempre focam muito mais na interação entre os personagens e seus conflitos interiores do que em suas ações e no mundo exterior. Temos um filme bem mais curto, com um foco bem maior nas conversas e interações.


Muitas das questões filosóficas do filme são colocadas para Tomas por outros personagens. Principalmente Märta e Algot (o sacristão). Märta apresenta a Tomas a questão existencial: porque Deus cria criaturas imperfeitas apenas para fazê-las sofrer? Porque ele as dá a capacidade de amar sem serem correspondidas? Na mesma forma, Algot questiona o silêncio de Deus, em uma conversa sobre os últimos momentos de Cristo na cruz, quando ele deve ter sido tomado pela dúvida, quando Deus mostrou-se silencioso ante seu sofrimento em vida.


O suicídio de Jonas é apenas um elemento do roteiro, que não parece ter tanta inflexão sobre o pensamento do padre, além do questionamento do seu dever de salvar uma alma perturbada. Somente quando ele precisa levar a notícia para sua esposa que Tomas parece chegar à conclusão que é mostrada no final do filme.


Em First Reformed, todo o filme se passa no período que antecede as festividades do aniversário da igreja First Reformed, que é um marco histórico por seu papel por abrigar escravos durante a Guerra Civil Norte-Americana. Nesse evento (financiado por doações do grande empresário local, Edward Balq). o pastor da Igreja Abundant Life, Jeffers (Cedric the Entretainer) pressiona Toller pelas aparências da Igreja e para que cuide melhor de sua própria saúde.

Com a história do suicídio de Michael, vemos que Toller começa a mergulhar no mundo do ativismo do meio-ambiente: vemos ele na Internet pesquisando o assunto, visitando a empresa local que polui um rio, antagonizando Balq, dirigindo pela cidade e vendo a desolação causada, etc. Alinhado aos problemas de saúde de Toller (que já pelo final do filme sabemos que é um câncer), entendemos completamente os motivos pelo qual ele toma a decisão de usar o colete-bomba confeccionado por Michael. Vemos um homem em desespero, sem esperança, em uma depressão profunda.


Quando em Nattvardsgästerna a história é mais contida e focada em conflitos interiores, First Reformed nos leva em uma exposição de grandes atos, com bombas, eventos grandiosos, empresas gigantes.


Mais uma vez, chegamos à conclusão de que os dois filmes tomam os mesmos ingredientes para criar a história, mas a apresentação e direção são totalmente diferentes, resultando em filmes maravilhosamente profundos, que buscam responder uma questão fundamentalmente humana sobre o amor, a existência e o papel da religião em nossas vidas.

4. A Direção e Aspectos Técnicos

Wisdom is holding two contradictory truths in our mind, simultaneously: Hope and despair. A life without despair is a life without hope. Holding these two ideas in our head is life itself. (First Reformed)

A direção e roteiro de Nattvardsgästerna são de Ingmar Bergman, Sven Nykvist dirige a fotografia. O estilo visual do filme é um clássico de Bergman: os planos são, em suas maioria, closes, o que dá um tom extremamente íntimo a cada cena. A composição das imagens acentua esse aspecto, com os atores se movendo de forma extramemente teatral durante suas cenas. Quando pesquisavam as locações para o filme, Bergman e Nykvist passaram um dia inteiro em uma igreja rural, observando como o Sol se movimentava dentro da construção.


A direção de Bergman é extremamente precisa aqui. Nenhum movimento da câmera não tem propósito ou razão, e não há cortes desnecessários quando, ao mesmo tempo, as cenas não se alongam mais tempo do que deveriam. Bergman era um mestre em dirigir seus atores (suas influências do teatro são usadas com orgulho), e a cinematografia de Nykvist se aproveita dos closes nas faces dos atores, buscando sempre o maior efeito dramático possível.

Também escrito e dirigido pela mesma pessoa (Paul Schrader), First Reformed conta com a direção de fotografia de Alexander Dynan. A direção é mais focada na estilística da linguagem cinematográfica do que no trabalho de Bergman: quando o diretor sueco foca seu trabalho em closes, composições e jogos de luz e sombra, Schrader busca planos amplos, cenários relativamente grandiosos e algumas cenas que transitam entre o psicodélico e o surreal.


Schrader e Dynan fazem o melhor uso possível das locações disponíveis, focando a fotografia nos exteriores grandiosos das igrejas, nas naturezas poluídas, nas ruas caóticas da cidade, nos interiores das casas e dos templos. O tom criado é agourento, fazendo sentir que existe algo de extremo e escuro pairando sobre todos nós.


5. Conclusão.

Nattvardsgästerna e First Reformed são dois filmes feitos por diretores que são mestres no que fazem, e são exemplos perfeitos sobre o que esperar da obra de cada um e, ao mesmo tempo, serviram na época em que foram lançados, para evoluírem a carreira desses diretores.


As forças de cada um desses filmes estão nas questões psicológicas e filosóficas que são levantadas e, através da direção magistral, temos dois filmes que podem parecer idênticos mas que, ao mesmo tempo têm sua personalidade e voz únicas e inesquecíveis.

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Escrito por Fernando Cazelli

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