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Mad Max - Fury Road: Para um novo século

Mad Max: Fury Road, uma sequência ou um reboot? Lançado em 2015 é concebido como uma reinvenção da saga clássica australiana, estrelada por Mel Gibson e dirigida por George Miller, a qual acompanha Max Rockatansky, um ex-policial que se encontra solitário, flertando constantemente com a insanidade após o assassinato de sua família em um cenário pós-apocalíptico movido à gasolina, uma nova moeda, onde quem a detém controla as massas.

Fury Road surpreende desde o início ao abandonar a trajetória de Gibson no papel principal para dar espaço a um ator em ascensão ao mainstream, Tom Hardy. Sob um contexto de escuta de pautas feministas, o olhar para o protagonismo da mulher do cinema não mais apenas como um objeto de motivação e/ou desejo para o personagem masculino, mas como personalidade independente, Miller percebe a necessidade de abandonar estigmas controversos tanto em sua obra quanto na escalação dos atores – tendo Mel Gibson sido responsável por diversas polêmicas misóginas, racistas e homofóbicas.


Dessa forma, em 2015 estreia o reboot de um clássico, um filme onde Max deixa de esboçar o perfil ideal de masculinidade, percebendo suas falhas e imperfeições, tentando conviver com elas ao mesmo tempo em que contempla-se a escalada de Furiosa – interpretada por Charlize Theron – construindo um feminino pouco frágil ou delicado, uma visão de força, esperança e vitalidade.


A caracterização do ambiente desértico e radioativo vivido pelas castas dessa sociedade varia desde “pequenos” detalhes como lagartos com duas cabeças, posse e privação de recursos naturais e saudáveis até a construção de uma religiosidade na figura de Immortan Joe, como um Messias, um pilar espiritual em conjunto com seus “irmãos”, The People Eater e The Bullet Farmer, pilar econômico e bélico, respectivamente. A “venda” de uma ideologia de salvação para os war boys, guerreiros afetados pela radioatividade, é o motor para sua sede de servidão ao Immortan e ao deus V8.


Para fortalecer essa crença, ainda existem mecanismos que em tela parecem irreais, porém são comprovadamente congruentes como a música diegética que acompanha as empreitadas dos war boys - fato é que serviços acompanhados de estimulantes como este se tornam mais tragáveis e instigantes.


Retornando ao princípio, os primeiros minutos de Fury Road são destinados à breve descrição daquela distopia: “My world is fire and blood” (“Meu mundo é fogo e sangue”), pelas palavras de Max que, logo de início, assume sua loucura, tendo consciência de que esta é fruto de um trauma e que sua jornada é a redenção onde o flerte com o heroísmo é apenas uma ilusão de expectativa criada pelo repertório fílmico do espectador, ou seja, Max sabe que é atormentado e que a insistente opção de se redimir – seja por acompanhar Furiosa em sua própria redenção ou simplesmente continuar vivendo – o acompanhará enquanto ele respirar, não o abandonando independente de seus feitos, pois ele é um prisioneiro de suas paixões sendo a mais forte o remorso.


Max apresenta em sua constituição diversos aspectos existencialistas, como “o homem é angústia” ao ponto em que seu poder de escolha e solidão no universo fazem com que suas decisões o impactem diretamente como o provocador delas além de ter que lidar com a liberdade dos outros ao que estes interferiram na trajetória de sua família.


Também, não há, essencialmente, um juízo de valor: como não há um ser superior onipresente e onipotente para interferir nas questões da Cidadela, o que ocorre ali não é por si só mau ou bom, essa moral só é aplicável quando se entende o potencial revolucionário de Furiosa e das parideiras e Max como um estrangeiro com suas próprias noções de bem e mal, uma vez que Miller assume um universo sem determinismo onde quem molda o rumo dos acontecimentos são os próprios humanos – como é visto na sequência final –, assim não definindo heróis ou covardes por nascimento ou posição o social.


Consequentemente, o que o reboot mostra é a capacidade de adaptação de George Miller à contemporaneidade, como trabalhar clichês, remodelando-os, compreendendo o surgimento de um novo público com valores distintos daqueles do clássico de Gibson. Não se precisa mais de um herói, o que existe é o humano e este é um projeto de si, logo culpado por seu próprio destino, responsável pelas consequências deste. E finalmente, Mad Max: Fury Road compreende o espaço da mulher não a tornando suporte para a trama e sim motivadora, consciente, sendo assim um filme desse século, produto claro de uma evolução pessoal, afirmando a capacidade de envelhecimento e renascimento de obras imortalizadas.


Escrito por Giovana Pedrilho

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