• Equipe

A Filosofia de: Melancolia - Lars Von Trier (2011)

''Melancholia'', dirigido e escrito pelo cineasta Lars Von Trier, é considerado um dos roteiros mais profundos e singulares do cinema do século 21. A sua profundidade faz com que camadas e camadas de análises possam ser feitas.

Esse texto contém spoilers!

A história se inicia na noite do casamento de Justine (interpretada por Kristen Dunst), em uma igreja próximo a uma região alocada por seu pai para passar seu fim de semana. Tudo parece estar nos conformes na vida de Justine, mas a revelação da relação de Justine com seus familiares e seu marido nos é entregue com os diálogos únicos e profundos, que criam um 'background' para nos aprofundarmos na vida de Justine até ali. Ela possui um grande passado de brigas com sua irmã Claire (interpretada, incrivelmente, por Charlotte Gainsbourg); seu chefe exige dela um novo 'slogan' para sua campanha de publicidade, em plena cerimônia; sua mãe faz um discurso totalmente num tom de ironia e deboche sobre sua filha estar se casando, terminando-o com a posição de que odeia casamentos e não acredita neles.

Justine nos revela que faz inúmeras tentativas de fazer de sua vida uma fachada de vida perfeita, e nesse fatídico dia, também falha. Ela sobe para um quarto acima de onde está ocorrendo a cerimônia ficar sozinha diversas vezes. Onde, aos poucos, vemos diversos personagens subirem à procura dela. E é aí que nos é construído todo o 'background' das relações de Justine, citadas anteriormente. Evidencia-se, gradativamente, a solidão que Justine sente, e toda a esperança dela que parece estar se dissipando com os conflitos daquela noite. Para piorar seu lado profissional, um dos funcionários da empresa de marketing, que também foi convidado por Justine, é influenciado por seu chefe para que Justine consiga pensar em um novo 'slogan' até o fim daquela noite.

Em seguida naquela mesma noite, todos do casamento são convidados a irem para fora da capela para escreverem mensagens de apoio e de ''boas vindas'' à essa nova vida de casados entre Justine e Michael, e colarem em um balão para soltar aos céus, como uma tradição. Porém, vemos que o balão, ao ser lançado, começa a se despedaçar e ficar em chamas. O que claramente é uma metáfora que nos diz que essas mensagens felizes e de apoio não servirão em sua vida, pois, assim como o balão, está se despedaçando aos poucos.


A felicidade é a última coisa que podemos imaginar que a personagem Justine possua. Para Epicuro, por exemplo, a felicidade é alcançada pelo equilíbrio dos prazeres de um indivíduo, mas quando levados ao extremo, pode causar o que ele chama de perturbações entre a saúde do corpo e a serenidade da alma. Mas a definição concreta que se encaixa perfeitamente na vida de Justine, é a do filósofo Slavoj Zizek, onde ele a define como um produto dos valores capitalistas. ''O ser humano é um eterno insatisfeito, porque na realidade não sabe o que queres''. Ela se concretiza muito na cena seguinte a dos balões, quando o funcionário amigo de Justine à procura novamente no campo de golfe, ela, sem dizer coisa alguma, começa a despir o rapaz e têm uma relação sexual ali mesmo.

Após essa cena, ela retorna para sua festa, mas é abordada mais uma vez por seu chefe. Onde numa iniciação carismática de diálogo, ele exige a colaboração dela para a criação do novo 'slogan'. Justine, furiosa e espantada com a coragem dele nesse momento, diz que o odeia junto à sua empresa; e em seguida, diz se demitir sem temor nenhum. O chefe, por sua vez, quebra alguns pratos próximos a ele de tamanha raiva e vai embora da festa. A cena segue para o marido de Justine, o Michael, dizendo que estará dando um tempo para a relação deles, e que ela não deveria nem ligar para o celular dele durante aquele fim de semana. Todos estavam indo embora da festa, quando Justine vê sua irmã Claire buscando algumas malas do carro, e quando ela à chama, Claire diz que às vezes ela a odeia tanto.

Quando Claire adentra pela última vez a capela, alguns garçons e organizadores do evento dizem à ela que a brincadeira de acertar quantos feijões haviam num pote ainda não havia tido seu resultado divulgado, nem mesmo para Justine. Um deles acrescenta que haviam 668 feijões, e que o prêmio nem tinha sido entregue para quem tivesse chegado mais perto da resposta.


Depois disso nos é apresentado o capítulo de Claire, irmã de Justine. Na manhã seguinte do casamento de Justine, Claire decide a levá-la para passar o fim de semana numa casa de férias de seu marido John, próximo a capela. Vemos a partir daí, que Claire se preocupa com sua irmã, e na situação que ela se apresenta, ainda mais. Justine, depois da cerimônia, se encontra totalmente infeliz, desanimada, triste e melancólica. Na tentativa de Claire de melhorar o ânimo de sua irmã ao andar de cavalo pela região, há uma cena onde o cavalo de Claire passa por uma ponte normalmente, mas o cavalo de Justine não consegue atravessá-la, sempre recusando e parecendo ter dificuldades de andar quando viu a ponte. Sendo uma metáfora muito grande para as dificuldades de Justine e como ela não consegue as enfrentar, quando sua irmã que possuí uma fachada de uma mulher sisuda e com uma vida estável, atravessa essa ''ponte de dificuldades'' com total facilidade.

Claire nas cenas seguintes, tem um diálogo com seu marido onde nos é apresentado o fato maior que o filme contornou até aí: que ela está muito preocupada com o boato científico da possível colisão de um planeta chamado Melancholia com o planeta Terra. Ao tentar acalmar Claire, John, sendo otimista como sempre pareceu ser, diz á ela que esse planeta está só de passagem longe da atmosfera e que não há perigo algum, pois ele é um astrônomo há muito tempo e garante que não haverá colisão.


Claire agora tem de cuidar de sua irmã Justine, que parece ter piorado ainda mais e entrado numa possível depressão profunda. Onde ela precisa de ajuda para se locomover, comer e até mesmo tomar banho. Mas com o passar do tempo na casa de férias, Claire vai percebendo algumas mudanças estranhas no comportamento de Justine, além de sua tristeza profunda e melancolia. Uma das cenas que percebemos um exemplo disso é em outra tentativa de animar Justine com um passeio á cavalo, onde ao chegarem na mesma ponte que tiveram problemas no dia anterior, Justine começa a dar chutes e ser totalmente agressiva com seu cavalo ao se recusar à atravessar a ponte. Um comportamento que Claire sentiu dificuldades de acreditar vir de sua irmã, que sempre foi tão calma e paciente para as situações. Em seguida, Justine olha para o céu e vê o planeta Melancholia parecendo estar mais próximo e diz: ''Lá está ele...está vindo...''.

O quê se vê claramente até aí é uma dicotomia de da melancolia que sempre pareceu estar presente em Justine, mas que em Claire, está se desenvolvendo por completo, já que sua preocupação com a possível colisão daquele planeta cresce gradativamente.

Nesse sentido, vemos que o sentimento de melancolia não é um distúrbio mental para Justine, e sim uma marca de autenticidade humana. Como se ela tivesse seguindo para um outro ''nível'', onde não há moralidade ou ética. Existindo então uma personagem que começa a acreditar com toda veemência de que o planeta Melancholia irá colidir com a Terra, e sua irmã que entra em uma crise exponencial de medo enquanto á isso.

Apesar de sua cena final possa ser considerada para muitos um final em aberto para interpretações, e para outros um desfecho positivista, o contexto do final flerta com a ideia da inexistência de sentido à vida, transformando todos esses atos humanos em atitudes patéticas, tranquilizando as ilusões criadas para trazer conforto para um indivíduo em uma crise semelhante.

A crise da subjetividade é clara ao analisarmos outro diálogo que Justine têm com Claire próximo ao final do filme. Claire comenta à irmã que o casamento não foi encerrado com a divulgação da quantidade de feijões (que também citei no início desse texto) , mas Justine a interrompe dizendo que haviam 668 feijões, que de fato tinha, mas a quantidade não tinha sido revelado para ninguém, nem mesmo para Justine. Em seguida, no mesmo diálogo, ao ser questionada pela Claire de como ela sabia dessa informação, Justine afirma que apenas ''sabe das coisas''; ela diz que a Terra é má, e que estamos sozinhos sim no universo, e afirmando com total convicção de que a Terra o único planeta que possui vida.


Em contraponto, vemos a desconstrução do sujeito moderno em sua irmã Claire, que parecia ser uma mulher com uma identidade imutável e tão racional, produto de um viés Iluminista. É possível também criar uma teoria sobre um pensamento proposto por Nietzsche, onde ele diz que possa existir um 'homos superior', ou, um Além-do-humano, através de: transvaloração de todos os valores do indivíduo; vontade de potência, superando o niilismo e reavaliando ideais velhos ou em criar novos; e de um processo contínuo de superação. Etapas essas, que vemos o tempo todo ser desenvolvido na personagem de Justine.


Mas se essa teoria, e muitas outras advindas de todos os simbolismo que o filme possua, é correta, isso não importa. O importante é chegar a ela, pois assim como uma obra, mais de uma interpretação pode ser válida para uma discussão ampla.

Quando assemelhamos os 3 tipos de identidade para Stuar Hall à personagem Justine, vemos que o sujeito iluminista não se aplica nela. Pois, ao contrário de sua significação, Justine não era uma pessoa dotada de razão, centrada em sua autonomia, de consciência e liberta. Pelo contrário, Justine parecia ser uma inconsciência ambulante, sendo determinada pelas ações e discursos de seus familiares dentro da cerimônia de casamento.

O sujeito sociológico, que em uma concepção é o preenchimento do interior e do exterior(pessoal e público), também pareceu sempre ter tido sua deterioração na vida de Justine. Porque a vida Justine parecia totalmente desajustada nessa relação de pessoal e público, nos parecendo que Justine não se projetava nessas identidades culturais e sociais.


Enquanto à definição de sujeito Pós-moderno, vemos que há mais veracidade quando se aplica na protagonista. Também conhecida como 'sujeito inacabado', Justine parecia realmente assumir diferentes 'identidades' dentro de cada contexto dos diálogos presentes durante todo o filme: na relação com a mãe, com o pai, a irmã e seu chefe. Havendo assim tipos de identidades contraditórias, que nos levam a diversas direções da vida. No caso de Justine: á profunda melancolia.

Os 5 fatos que são consequências desse sujeito são triviais se você entendeu o filme até aqui: A sociedade determinar a identidade de um indivíduo, manifestação do inconsciente, ideias reverberadas, a sociedade te moldar e o impacto do feminismo (nada mais claro quando se trata de um filme de Lars Von Trier).


Escrito por: Gabriel Lopez

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo