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"O Farol" e as narrativas do som

O gênero terror já conheceu diversas facetas, máscaras, armas e truques para cativar a amígdala do público, colocá-lo alerta pelos próximos dias após assistir ao filme, perturbá-lo em seus estados de inconsciência. A evocação da palavra terror remete visualmente no imaginário popular ao sobrenatural (Poltergeist, 1982), a slashers (Halloween, 1978) perigos naturais exacerbados (Jaws, 1975), porém o estilo vem adquirindo uma nova imagem: a do horror psicológico composto por enjoos internos, divagações do ser.

Nessa atual bolha do cinema de terror entra O Farol de Robert Eggers, diretor de A Bruxa (2015), trazendo ao ápice as atuações de William Dafoe e Robert Pattinson em uma trama do século XIX que se passa na Nova Inglaterra, narrando a trajetória do novo zelador do farol coordenado por Thomas Wake – William Dafoe -, entre bebidas, histórias de pescador e tempestades.


O Farol possui uma linguagem viscosa, a textura transborda – ou escorre – da tela através dos grãos da fotografia, da direção de arte pegajosa, criando uma camada encoberta pela maresia, suor e sujeira dos corpos em labor constante, exaustão. Porém, um dos trabalhos mais chamativos no filme é o de som, a película encontra a sua loucura na forma de onda sonora.


Os personagens são afogados pelos barulhos ensurdecedores constantes, principalmente Ephraim Winslow – interpretado por Pattinson - para o qual a sinfonia marítima é inédita: buzinas de barco, sons rasgantes de ondas quebrando em rochas, gritos de aves que o sondam, medindo-o, testando. O ambiente sonoro ergue quatro paredes ao redor de Winslow, sendo mais alto que sua sanidade. Diante dessa gama de informações, o ator entrega um zelador de primeira viagem genuinamente perturbado, o público distingue em suas feições o desgosto, o desajuste, a necessidade latente de distração, de fuga da realidade – tal qual suas experiências fantasiosas, especialmente simbolizadas pelo totem que encontra em seu quarto dividido

O design sonoro, principalmente quando reproduzido em uma sala de cinema – muito por conta dos efeitos do som surround -, prende a atenção do espectador, tornando-o cúmplice da derrocada dos faroleiros. Uma prova desta experiência é o fato de muitos nas salas levarem as mãos aos ouvidos para se protegerem do volume das buzinas. Tal poluição agrega no compreendimento da psique pressionada por tantas informações simultâneas.


Conforme os ruídos engolem a ilha e Winslow se acostuma ao dia-a-dia da moradia temporária, eles diminuem de intensidade, equilibrando-se no distúrbio visual: não é mais possível distinguir o real do imaginário, naquele cenário, ambos se mesclam de forma a se tornarem uma única massa.


A direção de arte, por sua vez, acompanha primorosamente a vertiginosa queda da mente: apesar de não perfeitamente arrumado, o farol mantinha certa aparência de decência, sucumbindo ao mar, à natureza que procura adentrá-lo por todas as brechas.

O Farol acerta no choque de sentidos, na total dissolução dos limites que demarcam a convivência pacífica – atingida, em partes, pela materialidade dos fluidos humanos retratados, das bebidas e comidas poluídas, mal preparadas. A lógica do filme, o pano de fundo da história que visa contar (um conto de vingança, subjugação, karma, psicose) revive narrativas mitológicas gregas, aplicando-as à vida dos homens do mar, trazendo a perspectiva da ira da natureza, da revolta dos deuses perante os desvios de regras mundanos: o divino não deseja ser perturbado.


A película assinada por Robert Eggers ainda concorre ao Oscar 2020 na categoria de melhor Fotografia, esta dirigida por Jarin Blaschke. O filme mostra domínio sobre diversas áreas do cinema, apesar de não ser mainstream em nenhum momento, entregando, portanto, uma obra peculiar em 2019 que levantará curiosidade tanto acerca da mitologia grega, quanto sobre o envolvimento dos dois protagonistas e seu psicológico.


Escrito por Giovana Pedrilho

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