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O Retorno de Andrey Zvyagintsev e a água

"Na Rússia contemporânea, Andrei e Ivan levam uma vida normal, como a de outros garotos de sua idade, e são felizes a seu modo. O mundo deles muda após a inesperada chegada do pai, que está afastado de casa há 12 anos. Tentando romper a barreira de relacionamento que os separa, o pai decide levar os dois filhos em uma viagem de carro de 3 dias. A mãe aceita a idéia a contragosto e os três partem sem destino definido. No decorrer da viagem os garotos envolvem-se de maneira distintas com o pai, envolvidos com a alegria de reencontrá-lo e a estranheza de mal conhecê-lo." (Fonte)

O filme "O Retorno" de Andrey Zvyagintsev é certamente uma das grandes obras

cinematográficas da Rússia pós fim da União Soviética. O filme conta a história de Ivan e

Andrey, dois irmãos que na volta de seu pai para casa, após 12 anos sem se ver, partem

em uma viagem de final de semana com ele. A água é um elemento extremamente

presente no filme e é utilizada de forma extremamente inteligente pelo diretor,

constantemente sendo motivo de receio e opressão para os personagens.


O filme começa completamente envolvido de água, um pequeno barco submerso dá

uma pequena visão do final do filme. No primeiro momento em que os personagens

principais aparecem, outra quase visão do futuro. Os irmãos estão no topo de uma grande plataforma tomando coragem para pularem de lá para a água, estão indo em direção ao desconhecido, Andrey, o mais velho, pula, Ivan,o mais novo, não.


No outro dia ao voltarem para casa os dois irmãos recebem a notícia que há um

desconhecido em sua casa, esse desconhecido é seu pai. A desconexão entre ele e os

meninos se torna clara na demora de um plano que mostre os três em conjunto. Essa falta de conexão se estende aos outros membros da casa, em especial a mãe, que em nenhum momento do filme dirige uma palavra sequer para o homem que chega em sua casa.

A viagem dos três começa e temos então o período mais seco do filme, tanto no

trato entre os personagens quanto na própria visualidade do filme. Mesmo assim a água ainda se faz presente e tem seus significados. Como por exemplo quando os três param para comer em um restaurante, o pai e Andrey recebem pratos secos, Ivan uma sopa. Ele se recusa a tomar a sopa da mesma forma que ele se recusa a se conectar com seu pai. No fim do almoço o pai e Andrey bebem café, eles diferentemente de Ivan levam a água para dentro de si.


Em uma sequência de cenas o filme nos mostra então de novo essa distância entre

o pai e os meninos, nos mostrando que ao entorno desse pai que pouco fala de si mesmo existem mais mistérios do que se aparenta. Isso se torna mais claro quando o pai leva os três até um cais. Lá, longe das crianças, ele conversa com algumas pessoas e sem contar nada para os filhos volta com um pacote para o carro.


No acampamento que os três fazem para passar a noite Ivan se mostra completamente aficionado com a pescaria. Essa utilizada como metáfora para retirar algo da água, Ivan repudia a água. Quando um novo dia chega e Ivan segue querendo pescar, seu pai o deixa no meio da estrada. Uma tempestade chega e Ivan percebe que não tem mais como fugir da água, ele já está envolto nela querendo ou não. Na sequência o filme mostra então pela primeira vez todos os membros da viagem se submetendo a água, mesmo que a contragosto, e trabalhando juntos para que possam prosseguir a viagem.

Após todos terem se molhado juntos. O filme parte então para uma nova parte e é

agora que a água mostra todo o seu perigo. O pai leva as duas crianças para uma ilha

deserta a água está à espreita por todos os lados e é algo que eles terão que enfrentar

independentemente de como caso queiram voltar para a casa. No meio dessa ilha existe um enorme mirante, parecido com o do início do filme. Porém pular não é mais uma mostra de coragem e sim um grande perigo, tendo em vista que o que entorna o mirante é chão duro. A água se garante em denotar sua violência e fúria com mais uma chuva torrencial que une os personagens os molhando.


Por ter se molhado tantas vezes Ivan começa a acreditar que a água pode ser uma

aliada. Ele joga o prato de seu pai no mar como forma de usá-la a seu favor. Inicialmente isso parece se mostrar uma boa ideia pois Ivan consegue um tempo sozinho com seu irmão para procurar por minhocas para pescar. Seguindo confiante em relação a água Ivan e seu irmão partem para pescar no mar. Contrariando as ordens do pai os dois passam mais tempo do que deviam no mar. Ao retornarem para a praia a tensão aumenta. O pai parte para a violência física. Ivan se desespera e ameaça o pai com uma faca, mas por não ter forças para enfrentá-lo foge. Ele busca abrigo em onde antes era um motivo de medo para ele, o mirante. No topo do mirante ele se tranca e ameaça saltar do topo, o pulo não é mais uma prova de coragem, é um fim. E esse fim chega, mas para o pai ao invés de Ivan, ao tentar escalar o mirante pelo lado de fora ele cai.


A morte do pai deixa os filhos na incumbência de voltar para casa e levar seu pai

junto. A volta é difícil, tanto fisicamente como psicologicamente. E depois de toda essa difícil travessia de volta o pai afunda na água, deixando os filhos completamente sozinhos.

A água que segue os personagens por todo o filme pode ser considerada uma

metáfora para a relação dos três que estão nessa viagem, ela é violenta e amedrontadora e está em quase todas as cenas do filme. Com o tempo ela está sendo cada vez mais opressora até que ao final ela é a última provação dos meninos para superarem a falta de um pai ausente.


Escrito por João Cardoso

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