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Crítica: Palo Alto - Gia Coppola (2013)

April é uma tímida garota, que se vê dividida entre uma paixão mal resolvida e um flerte com o seu treinador de futebol. O filme mostra a vida, muitas vezes tediosa e autodestrutiva, dos jovens que tentam se encontrar de alguma forma em algum lugar.


A delicadeza do caos

Sutil e arrebatador, tal como a adolescência, Palo Alto (2013), primeiro e único longa-metragem dirigido e roteirizado por Gia Coppola, cativa pelo absurdo que beira os limites do comum sem, contudo, ultrapassá-los, perfeitamente capaz de levar o espectador a momentos de intensa relação com a trama, prendendo o fôlego ao rediscutir as decisões dessa fase da vida e os sentidos dela, sem extrapolar no que guarda o amadurecimento.


O filme demonstra a capacidade da diretora em estabelecer a sinergia entre o produto final e o roteiro, amarrando a narrativa sem sufocá-la, permitindo que o sentimentalismo adolescente flutue entre os cenários e falas. Fomentando essa ambientação, Sara Jamieson, Dori Hana Scherer (direção de arte) e Autumn Durald (direção de fotografia) criam um universo visual repleto de cores suaves, amornadas, encantador no que procura transmitir: a adolescência como algo superficialmente pacato e cliché, porém com a construção de camadas emocionais que buscam entender, ou ao menos estudar o caos prazeroso da juventude, indicando, sem apoiar-se no diálogo para fazê-lo, os sonhos de futuro incertos, a violência que ronda os adolescentes e abordando questões claras de privilégio branco.

Sem demasiados julgamentos morais, Coppola apresenta ao público Emma Roberts como April, uma jovem tímida, relativamente introvertida e ingênua em seu conhecimento de mundo; ela se vê dividida entre a ideia de ter uma relacionamento amoroso com o garoto que gosta ou com seu treinador de futebol, sendo o primeiro mais desafiador, pois requer que ela deixe sua zona de conforto para se envolver com alguém semidesconhecido, enquanto com o outro o romance é praticamente garantido, apesar das barreiras de idade e suas consequências, as quais não são esquecidas.


Porém, o que mais impressiona nesse coming of age não é a vida amorosa e sim os dramas que envolvem os personagens secundários, como Teddy (Jack Kilmer), pretendente de April que, apesar de sua personalidade relaxada, inclinação artística e prestatividade, constantemente se afunda com o amigo Fred (Nat Wolff) - nesse tocante, a direção não crucifica Fred, deixando transparente que apesar de ainda não serem maduros, em momento algum é tirado desses jovens a verdade de que estão conscientes de suas escolhas – o qual enfrenta seu próprio psicológico abalado através dos escapes que sua faixa etária propicia.


Gia Coppola apresenta uma atuação fantástica de Nat Wolff na qual ele liberta seu personagem do papel, transparecendo sua personalidade perturbada até mesmo em seus movimentos, criando sensações de nervoso convincentes e constantes. Além disso, há destaque para Emma Roberts que explora a timidez e questionamentos de April através de seus olhares e momentos contemplativos uma vez que ela não se comunica tanto por falas.

Dessa forma, Palo Alto é, sem dúvida, um filme a mais a favorecer a cinematografia feminina, enaltecendo esse cinema abafado pela indústria majoritariamente masculina, mostrando que não é necessariamente com outros olhos que as mulheres enxergam as películas – de maneira menos violenta ou onírica, como acreditam conservadores, inclusive, Coppola apresenta uma história repleta de violência – e sim que há modos diferentes de realização para cada pessoa independente do gênero, contando, além disso, com a compreensão feminina das limitações e sentimentos das atrizes, respeitando seus corpos. Esse filme não visa o exagero, tão pouco o surreal e sua história transpõe o solo californiano, merecendo um mergulho em sua filosofia para além dos amantes de coming of age.


Escrito por Giovana Pedrilho

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