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Crítica: Pieces Of a Woman - Kornél Mundruczó (2020)

Pieces of a Woman, dirigido por Kornél Mundruczó e roteirizado por Kata Wéber, soma na lista de longas que contam com a colaboração do diretor e da roteirista, como é o caso de White God (2014). Essa nova produção Netflix estreada em 2020 recebeu uma indicação ao Oscar 2021 na categoria Melhor Atriz, indicada Vanessa Kirby.

O filme acompanha Martha – Vanessa Kirby – e Sean – Shia LaBeouf – no luto de sua filha falecida no nascimento. O parto, é, inclusive, a cena de maior tensão, tendo aproximadamente 25 minutos de duração em que persegue os futuros pais pela casa, seguidos de sua doula substituta, num clima de ansiedade, expectativa, mal-estar e esperança. A câmera segue-os pelos cômodos ora causando claustrofobia por corredores estreitos e closes das reações de Martha, ora afastando-se e permitindo um respiro como o momento na banheira que precede o parto. A agitação é sentida na decupagem, tornando a própria câmera um pai preocupado e o espectador um cúmplice de fôlego preso. Porém o destaque da sequência é a atuação de Kirby, submersa nos efeitos da gravidez, mostra tanto sua dor e desconforto quanto sua paixão pela criança que está para colocar no mundo.

Após a perda, Martha fecha-se e o filme privilegia a reação de Sean em sua primeira metade, exibindo sua necessidade de contato, de apoio e justiça que não pode ser suprida pela mãe enlutada. Pieces of a Woman, então, parte para a narrativa de distanciamento do casal. Essa escolha, porém, distancia Martha, a mulher que inspira o título, do público, presumindo que se entende a intensidade de seu sentimento ao não lhe dar mais tempo de tela logo depois do parto. Seu desdobrar volta na relação de Martha com a própria mãe - Ellen Burstyn –, num embate de visões sobre maternidade.


A questão da justiça que afeta Sean provoca um desdobramento de subgêneros no filme, em sua maior parte é um drama sobre o luto da morte de um filho e o casamento, porém as partes de julgamento constituem um drama judicial com um estilo próprio, uma fotografia mais asséptica, compartilhando com a direção de arte tons azul, verde e marrom, despindo do filme seu clima frio familiar lúgubre e colocando um teor de oficialidade. No júri, é também Kirby que rouba a cena em um monólogo onde torna claro o turbilhão pelo qual tem passado.

Por fim, Pieces of a Woman busca retratar a desconstrução de Martha causada pela sua dor e o faz em fragmentos, não a expondo a todo momento, não focando apenas nela, mas sim nas pessoas que a rodeiam e como elas a enxergam para que quando Martha apareça, ela contradiga o imposto, revelando a sua própria visão. O título destaca uma mulher, porém são os cacos de todos os seus familiares que formam o montante sentimental do filme, contrapondo o luto geral com o luto da mãe.


Escrito por Giovana Pedrilho


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