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Shrek: Uma viagem para além do meme

É fato que nas páginas das redes sociais do mundo afora existem diversos memes relacionados aos filmes do Shrek, como é o caso do “talvez não funcione com burros". Mas algo me chamou a atenção. Rolando o feed de um grupo de cinema do Facebook chamado “Planeta Hulk Cinéfilo” percebi que quando alguém perguntava sobre os melhores filmes de determinado gênero, mesmo que fosse surrealismo por exemplo, sempre tinha alguém que comentava “Shrek", inclusive, um dos nossos redatores, nosso querido Fernando Cazelli (leia as críticas dele, vale a pena) era um dos que mais disseminava este tipo de comentário. E sim, memes a parte, Shrek representa um marco na história das animações e do cinema e logo mais explico o porquê.


Os filmes de animação existem desde o século retrasado, da época do cinema mudo, onde nenhum filme era colorido, com exceção deste, pintado a mão. Estima-se que o primeiro filme de animação seja Pauvre Pierrot, uma animação francesa lançada em 1892, cuja história conta sobre um cara que vai ver sua amante e chega o corno tocando violão, o que assusta o "Ricardão" e o faz ir embora. É uma película de quatro minutos que era para ter originalmente um quarto de hora, mas boatos dizem que o diretor,  Charles-Émile Reynaud, jogou as imagens originais no Rio Sena. Acredito que seja por desgosto, pois o filme é horrível, apesar de que é inegável sua importância e o pontapé inicial que deu nas animações.

Pois bem, depois disso veio aquela história que todos já sabem, fundação dos estúdios como Disney e Hannah-Barbera no ocidente e estúdios como o Ghibli no ocidente (tem um texto sensacional no blog sobre ele, escrito pela nossa querida Marina Rezende, vale a pena ler), que fizeram obras que marcaram gerações de crianças e adultos e tudo o mais. Até que surgiram também outras técnicas de animação como o stop-motion e os primeiros computadores, que trouxeram produtividade e rapidez para produzir desenhos animados como também outros meios de se animar, como o 3D. Uma empresa seminal neste meio foi a Pixar, fundada em 1986. Eles já produziam curtas-metragens, mas em 1995 foi o marco na indústria da animação, o primeiro longa em 3D da história, Toy Story. Alguns dizem que a primeira película inteiramente em 3D foi um mérito nacional, a obra Cassiopéia, de 1996, visto que na história de Woody e Buzz haviam sido usados moldes de argila para criar os personagens. De qualquer maneira, esta técnica foi ficando cada vez mais popular e utilizada, gerando estúdios como a principal concorrente da Pixar, Dreamworks, fundada em 1994 por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen.


Os filmes da Pixar são muito particulares, eles encantam crianças e adultos de forma única. Utilizando uma fórmula tradicional, como uma receita de bolo de vovó, o arco de quase todos os filmes gira em torno de um determinado grupo liderado por algum personagem que de repente, geralmente motivado por algum vilão, tem de sair de sua zona de conforto para resolver este conflito, que no final acaba sendo solucionado, o vilão derrotado e todos de seu grupo, incluindo ele mesmo, terminam felizes. Apesar do miolo de Monstros S.A., Toy Story, Vida de Inseto, Divertida Mente e Up! ser justamente este em todos estes filmes, o jeito que cada obra encanta é diferente, ainda temos a sensação de estarmos assistindo a algo novo todas as vezes. Mas seria concebível uma empresa que simplesmente distorcesse todos estes padrões e ainda assim fizesse filmes ótimos?


A Dreamworks é a resposta para a pergunta acima. Seu primeiro longa digital, Antz, ou Formigaz, foi lançado em 1998, fez sucesso, mas nem tanto quanto seu sucessor, que veio três anos depois: Shrek. Para se ter noção, as animações criaram até mesmo uma categoria no Oscar em 2001, vulgo melhor animação e adivinhe quem levou a estatueta daquele ano: isso mesmo, SHREK.

Mas porque esse filme assume uma responsabilidade tão grande, de ser uma quebra de paradigmas estabelecidos pela Pixar, uma estúdio que quase nunca erra?

Em primeiro lugar, Shrek pega emprestado elementos e personagens já conhecidos das fábulas, como um reino tão tão distante, a jornada do herói, o mocinho que salva a princesa e precisa protegê-la do dragão e os personagens Pinóquio e o gato de botas, mas usa-os de um jeito nada comum. A jornada é realmente sobre um herói, Shrek, que características de herói e mocinho bondoso não tem nenhuma. Ele é feioso, ranzinza, não possui as devidas armas e seu fiel escudeiro é um burro, atributos os quais nunca viu-se nenhuma fábula tradicional descrever os protagonistas. A princesa é linda, como sempre, a priori, pois depois de uma transformação, o filme mostra que o atributo beleza é relativo, no melhor estilo “quem ama o feio, bonito lhe parece". O dragão também é feroz à primeira vista, mas basta algumas palavras doces do burro para amolecer o coração desta, entre muitas aspas, fera. O gato de botas na fábula original é inteligente, astuto e cheio de classe, enquanto o do filme do nosso ogro, de classe só tem o sotaque espanhol, (dublado por António Bandeiras na versão original) pois o mesmo é desengonçado e bobo. Pinóquio não é necessariamente o moleque problema da história original, na verdade sua desconstrução é mais um alívio cômico no filme, no melhor sentido possível, já que rende ótimas piadas do tipo “contar uma mentira para o nariz crescer".


Em segundo lugar, como diria o próprio Shrek no primeiro filme, “Os ogros possuem camadas, como as cebolas". A Pixar costuma fazer filmes com certa linearidade, já Shrek, por mais que tenham a fórmula início-conflito-clímax bem definida e reconhecível, possui muito mais plot twists e subtramas que as obras da subsidiária da Disney. Shrek 1 e 2 possuem esta premissa. Os roteiros seguram a trama principal para desenvolver um acontecimento solto que muda o rumo da história, que acontece por algum mal entendido. Esta subtrama, por sua vez, continua sendo desenvolvida no meio da historia, que faz o final não ficar tão óbvio, dando certo ar de que a história vai acabar pior do que quando começou, e é aí que entra o uso das reviravoltas, que dizem “é claro que tudo vai acabar bem, como você pode pensar que não?”.

Em terceiro lugar, o público-alvo. Tudo bem que os desenhos clássicos da década de 30 e 40 não tinha as crianças seu público principal, até porque existiam piadas maliciosas e consumo de álcool e tabaco nestas obras. O potencial atrativo das animações foi descoberto depois que produtores deste tipo de conteúdo viram que o mesmo fazia sucesso entre a garotada, o que fez com que alguns desenhos pisassem no freio e as leis de censura passassem a barrar certos conteúdos que considerassem impróprios. A Pixa faz seus filmes visando a família como um todo e por isso é raro vermos piadas de duplo sentido ou coisas do gênero em seus trabalhos. Shrek foi pensado para ser assistido com a família, o que não significa que a obra é necessariamente um filme de família, já que existem piadas que quando você era criança não entendia, só passou a compreende-las depois de certa idade. E não é humor de cunho meramente erótico para os pais que acompanham os filhos na sala de cinema não morram de tédio, tratam-se de piadas muito bem colocadas sempre que necessário, o que faz a mesma ser ainda mais divertida e engraçada, cumprindo bem o papel de recompensa, sendo assim, um resgate à abordagem mais madura dos clássicos cartoons.


Em quarto lugar, o filme ensina lições. Partindo da premissa de desconstrução das fábulas tradicionais, isso meio que fica claro. Um herói sem atributos heroicos, uma princesa sem beleza alguma, um fiel escudeiro cuja espécie é um xingamento para alguém que é ignorante e em quem você não confiaria, reis, príncipes e princesas com beleza exterior que são simplesmente desvirtuados de qualquer caráter atribuído à aparência física, como mostrado nas fábulas, uma visão diferente de personagens já conhecidos cujas características geram piadas simples e hilárias, como o fato do pão de gengibre perder braços ou pernas, entre outras. Tudo isso simplesmente explana às crianças e adultos o quanto o ideal das historinhas encantadas é furado e o quanto elas as vezes passam lições narcisistas e superficiais, criando pessoas extremamente vaidosas. E é interessante como através do amor de Shrek e Fiona, uma bela relação deve ter muito mais que beleza – e que belo casal, diga-se de passagem.

A Pixar parte de premissas já conhecidas como “e se os monstros existissem?”, “e se os animais/brinquedos/veículos falassem?”, o que não deixam de ser ideias geniais, já que são perguntas cujas respostas mexem com a imaginação das pessoas e foi justamente isso que aconteceu com os produtores, que criaram obras que marcaram infâncias. Mas a Dreamworks pisou em territórios ainda mais desconhecidos e abrangendo um público ainda menos restrito de idades e utilizando a malícia de forma transparente para as crianças, histórias que estamos calejados de ouvir e da reinvenção das mesmas, criou a franquia Shrek, que é um filme ainda mais pé no chão. Isso mesmo, apesar do pano de fundo ser um reino encantado, as questões abordadas são bastante maduras e realistas, como a autoestima, a amizade e a lealdade, o amor e o afeto, corrupção e também a paciência, como quando Shrek diz ao burro: “ a gente ainda não chegou!”.

Shrek deu a Dreamworks uma personalidade, um estilo de se fazer animação totalmente desvinculado da ex-empresa de John Lasster, inovando na abordagem, no estilo de humor, na moral da história e na quebra de padrões para se animar. Mostrou que é possível reerguer o jeito sem censura do passado de se fazer desenhos e ainda acrescentar novas ideias e tecnologias. Mostrou que uma abordagem fabulesca pode ser um ótimo pano de fundo para questões corriqueiras e de quebra, dá um tapa na cara de quem pensa que “animação é só coisa de criança”.


Escrito por André Germano

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