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"É... eu amo o Sion Sono"

Sion Sono é um dos mais prolíficos diretores de cinema do Japão atualmente. Com quase 40 anos de carreira e mais de 50 filmes, sendo que desses mais de 40 foram lançados nos últimos 20 anos. Sua produção é incessante, chegando a pontos como em 2015 que o diretor lançou 6 longas metragem em um ano! Mesmo em 2020, um ano claramente mais devagar na indústria cinematográfica, Sion Sono lançou uma série na Netflix, um curta metragem e um longa (um dos melhores filmes de sua carreira diga-se de passagem).


Sua filmografia é polêmica, barulhenta, extremamente inventiva e muito divertida. Muitos que se aventuraram por ela contam a história de como Sion Sono foi rapidamente se tornando um dos seus diretores favoritos. Esse texto é um desses, desde que eu comecei a assistir os seus filmes o caos, a mistura de gêneros cinematográficos, o humor, os visuais impressionantes e seu amor pelo cinema foram rapidamente crescendo em mim de forma que eu me apaixonasse completamente por seus filmes.


Meu objetivo aqui é convencer os que ainda não estiverem convencidos e (tentar) guiar os que pretendem se aventurar em uma das mais bizarras e fascinantes filmografias existentes. Dessa forma vou apresentar alguns dos melhores filmes dele em uma ordem que acredito que valha a pena ser seguida, ordem esta que eu mesmo não segui e você pode tranquilamente não seguir também.


Love and Peace (2015)

Indicar por onde começar com Sion Sono é sempre complicado pois vários de seus filmes tem uma característica em terem começos estranhos em que não se tem muita ideia de onde o filme quer chegar. Mas isto é parte da experiência, suas tramas e personagens sofrem grandes mudanças ao longo da narrativa, então uma certa confusão inicial é comum. Este é o caso de Love and Peace somos apresentados a Ryoichi, um grande perdedor, sem nenhum amigo, sem namorada, trabalhando em um emprego que ele odeia, ridicularizado por todos, mas com um grande sonho de ser um músico de sucesso. Ele encontra amizade em uma pequena tartaruga de estimação que compra por 200 ienes (cerca de 6 reais na época do filme), a qual ele nomeia Pikadon.


Seus colegas de trabalho o ridicularizam por andar para cima e para baixo com Pikadon fazendo com que ele a jogue pela privada. A tartaruga vai parar em um esgoto junto a brinquedos e animais falantes e um senhor que cuida e conserta daqueles desprezados pelo mundo de cima.


Paro aqui de contar a história do filme dizendo que este é um dos mais tocantes e belos filmes que o diretor já fez, além da clara comédia presente no filme Love and Peace ainda mistura gêneros e sub gêneros cinematográficos como: musical, filme de natal e kaiju (os filmes de monstros gigantes como Godzilla). Tudo isso para criar uma tocante obra criticando o consumismo desenfreado e como ele faz com que descartemos tudo que sentimos que não mais nos servem, inclusive pessoas. E ainda tece um breve comentário de como esse consumismo afeta as relações políticas na população fazendo-a não lembrar do próprio passado.


Love Exposure (2008)

Love Exposure é seu mais grandioso e complexo experimento cinematográfico, com 4 horas de duração o filme é recheado de temas, personagens, tramas e subtramas. É difícil dar uma sinopse de Love Exposure, e isso é algo que acontece com outros dos filmes de Sono, ele usa aqui uma estrutura narrativa que passa grande parte do início do filme apresentando detalhadamente cada personagem importante e estabelecendo as relações entre eles antes de dar algum objetivo baseado nessas relações, então algumas das informações que servem de base para o filme e para as ações dos personagens acontecem cerca de uma hora de duração (isso acontece mesmo com filmes mais curtos). Esta estrutura pode parecer estranha sendo descrita, mas, acontecendo na frente dos nossos olhos, funciona muito bem. Muitas vezes os personagens fazem escolhas questionáveis, mas ao entendermos o seu passado, quase sempre traumático, conseguimos entender os motivos de suas ações.


A o filme segue Yu, um jovem que quer ao máximo impressionar seu pai, um padre católico, para isso ele passa a pecar compulsivamente para que possa confessar para seu pai distante. Em suas aventuras como um ninja tirador de fotos de calcinhas (isso mesmo que você leu), ele, vestido com roupas femininas, se apaixona por Yoko, uma menina que lutava com homens na rua. Esta é a premissa de um dos melhores filmes sobre amor, religião, família e pertencimento que já foram feitos.


Em Love Exposure Sion Sono lida com uma ideia que é recorrente em diversos de seus filmes, a de que a família é uma instituição falha (discussão presente também em outros de seus filmes como Antipornô, Himizu, Floresta de Sangue e Noriko’s Dinner Table). A corrosão dos laços familiares é algo natural, traumático e inevitável. Os personagens jovens em seus filmes muitas vezes devem lidar com o abandono daqueles que deveriam protegê-los, sendo forçados a lutar sozinhos em um mundo hostil que os cerca.


Com uma dos mais marcantes monólogos da história do cinema, Love Exposure se mostra um filme a todo momento potente e surpreendente.


Tag (2015) / Antipornô (2016)

Tentarei ao máximo não falar nada da história de nenhum desses filmes, e digo o motivo. Nesses dois filmes a descoberta da narrativa é parte essencial da experiência de assistir ao filme. Ambas narrativas vão se revelando e mostrando que não são o que parecem ser. Os dois filmes trabalham, de formas diferentes, com repressão sexual e heterossexualidade compulsória. Antiporno focando mais no primeiro tema e Tag no segundo. Ambos filmes são visualmente de tirar o fôlego (principalmente antipornô, possivelmente o filme mais bonito de Sion Sono), e em suas fantasias nos mostram um mundo repressor e violento com as mulheres. Discutindo ainda o trabalho do artista masculino na manipulação e objetificação do corpo feminino. Dessa forma o cineasta trabalha com críticas direcionadas ao próprio cinema em relação a violência e sexualização feminina.


O Pacto (2001) TW: Suicidio

O Pacto é o primeiro filme de Sion Sono que faz barulho, muito se deve pelas polêmicas que cercam o filme. Com uma grande violência gratuita e exagerada, o filme inicia com um suicidio coletivo de 54 meninas pulando nos trilhos de um trem. A partir disso temos uma brilhante mistura de thriller policial com terror de alto nível, enquanto um policial tenta entender o que, ou quem, está causando essa onda massiva de suicídios entre jovens.


O Pacto é um filme estranho e desconfortável que tenta a todo o momento te levar ao limite do aceitável. Particularmente acho que os efeitos exagerados, a linguagem de filme B de baixíssimo orçamento e a narrativa confusa foram o que me prenderam no filme.


Why Don’t You Play In Hell? (2013)

Deixo por último o meu filme favorito dirigido por Sion Sono. Faço a recomendação de que façam o mesmo que eu e assistam O Pacto e Why Don’t You Play In Hell? um em seguida do outro, mesmo que sejam filmes muito diferentes, a cena final de O Pacto e a inicial de Why Don’t You Play In Hell? conversam muito.


O filme é a grande obra de mistura de gêneros e subgêneros cinematográficos da carreira do diretor, sendo um filme de comédia, yakuza, luta de espadas, kung fu, filme sobre filmagem, drama e com as pitadas de fantasia presentes em toda a filmografia do Sono. Neste filme ele volta para a sua melhor estrutura narrativa, em que passa uma hora do filme nos introduzindo todos os personagens principais e suas relações para depois deixá-los livres na narrativa sem ter que justificar suas ações. Dessa forma Sion Sono cria o filme mais caótico (no melhor dos sentidos) de sua carreira. Seguindo a filmagem de uma guerra entre dois grupos da yakuza, o filme demonstra uma completa paixão pelo cinema independente e apaixonado pelo cinema acima de tudo. A violência é exagerada e cômica, tudo no filme quer te fazer rir.


É impossível falar mais do filme sem spoiler além de dizer que você terá cerca de 40 minutos de uma guerra entre um grupo de yakuzas vestidos de kimono contra outro grupo com ternos mais um maluco vestido de bruce lee, tudo isso enquanto uma equipe de filmagem captura todos os momentos dessa batalha. Junto de tudo isso você ainda vai escutar repetidamente uma música de propaganda de pasta de dente que não sairá tão cedo da sua cabeça.

Sion Sono é um diretor incrível e que dominou completamente meus pensamentos no último ano, acredito muito que ao passar a barreira do estranhamento de seu cinema encontramos um diretor maravilhoso e que em toda sua loucura consegue trabalhar com temas delicados e de forma contundente, criando discussões riquíssimas em seus filmes.


Escrito por: João Cardoso


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