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Taxi Driver VS. O Bandido da Luz Vermelha

A apropriação cultural é uma prática milenar cuja difusão apresenta escala global. No decorrer da história da arte foi e ainda é comum observar a reiteração de estilos artísticos por artistas posteriores a eles, como ocorreu no Renascimento em sua profunda inspiração na antiguidade greco-romana, com Vincent van Gogh e sua colheita criativa na arte asiática. Porém, por vezes a obra inspiradora é usada de modo a fazer seu público crer a outra é a original, resultando na apropriação artística.


Não seria impressionante pensar que no âmbito cinematográfico diretores bebem de outras fontes do meio, permitindo que suas visões sejam influenciadas por elas o que reflete em suas produções. Dessa forma, não é incomum casos que resultam em filmes similares de dois ou mais realizadores. Nesse sentido, a seguinte análise propõe uma divagação acerca dos aspectos semelhantes entre O bandido da luz vermelha (1968) de Rogério Sganzerla e Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese. O primeiro trata de uma trama baseada em fatos reais que acompanha três personagens arquetípicos: o bandido, o policial e o político; tratando de adentrar três esferas sociais de um país subdesenvolvido, a manipulação midiática e a metrópole comercial em que se passa – São Paulo -; para tanto, tem como protagonista a primeira figura, que é autoconsciente de sua posição - como ele mesmo diz “Posso falar de boca cheia, eu sou um boçal” - ao mesmo tempo em que percebe a dos outros ao seu redor, a hierarquia caótica e autodestrutiva representada pelos outros dois, a imagem hipócrita que deve ser destruída (“O terceiro mundo vai explodir. Quem estiver de sapato não sobra, não pode sobrar!”). Assim, o bandido da luz vermelha é uma personagem em constante conflito interno – pergunta-se repetidamente sobre sua própria identidade em voz off no decorrer da metragem – e em busca de sua justiça, mesmo que não tão elaborada, não considerada algo propriamente “justo” por ele mesmo, porém uma avacalhação sobre o poder.

Taxi Driver apresenta Travis Bickle – interpretado por Robert DeNiro -, um taxista de Nova York, que sofre de insônia e trabalha no período da noite, costumeiramente pelas zonas periféricas. Ele possui um senso de justiça próprio, apoiando-se na ideia de que a chuva deverá lavar a cidade de todo o seu lixo – a escória da sociedade.


As cenas de abertura do filme de Sganzerla introduzem o bandido jovem, em meio a fumaça, correndo em uma favela. Nesse momento é instituída a universalidade dele: não é possível distingui-lo no grupo de crianças, não se sabe se a câmera realmente o acompanha, logo ele não possui uma única persona. No início de Taxi Driver surge a fumaça e uma intensa luz vermelha no rosto de DeNiro, ao mesmo tempo em que apresenta a cidade, uma das mais globalizadas do mundo, principalmente de sua época, mostrando, também, sua zona marginal, estabelecendo, assim, que ambas as metragens se passam com personagens das mesmas classes sociais e na mesma região relativa de suas metrópoles.

Em O bandido da luz vermelha, a parte externa iluminada de um prédio narra parte da história através de notícias passadas em uma tela, enquanto Scorsese traja Nova York com seu neon nas fachadas dos estabelecimentos, contextualizando aquela área, onde a trama se passa e o que costuma ocorrer ali, fomentando o discurso de Travis sobre o local.


Pensando em especial no cinema marginal e na Boca do Lixo, Sganzerla expõe sem censuras a face da marginalidade ao desenvolver personagens na prostituição, tal como é reiterado por Scorsese com Iris (Jodie Foster) que possui apenas doze anos de idade, discutindo assim o fascínio exercido pelo arquétipo de Lolita ao mesmo tempo que transmite a sensação de subsistência deplorável da criança, à margem de qualquer visão midiática que, em ambos os filmes, volta-se para os políticos, um sendo J.B da Silva e o outro Palantine, ambos com amplo suporte das femme fatales – Janete Jane e Betsy – o que desperta primeiro fascínio, ou, em outras palavras, obsessão por parte dos protagonista e posterior desprezo.



Travis encontra seu clímax ao cortar o cabelo em um moicano e partir para uma missão justiceira suicida para libertar Iris dos cafetões que a mantém, enquanto da Luz de fato se suicida, levado consigo todos os representantes das esferas corruptas da diegese, dando espaço para a invasão alienígena, ambos permitindo que um novo grupo tenha a chance de expansão e desenvolvimento que eles não encontraram, praticando essa abertura perante suas perspectivas particulares de justiça.


Por fim, Travis Bickle reúne em si a imagem do policial, além da do bandido, uma vez que critica a modernidade como o delegado Cabeção ao constantemente falar sobre o “lixo humano” das ruas de Nova York representado por jovens de diversas etnias enquanto o delegado, em uma afirmação hitlerista, chama a arte moderna de degenerada, ambos negando a perspectiva futura de florescimento daquela cultura.

A partir desse paralelo, resta a dúvida: poderia Taxi Driver de fato ter se inspirado ou se apropriado de uma obra audiovisual brasileira? É conhecido o interesse de Scorsese pelo cinema nacional, tanto que sua fundação esteve presente no projeto de restauração de Limite de Mario Peixoto, sendo possível e provável que ele tenha entrado em contato com O bandido da luz vermelha, retirando deste claras e entusiasmadas ideias para o mundialmente conhecido Taxi Driver. Portanto, da mesma forma que, nas artes plásticas, é relevante reconhecer a apropriação de Pablo Picasso sobre a arte africana, é imprescindível debruçar-se pelo repertório cultural de um realizador, dando atenção para obras que vieram antes das suas e lançaram ao mundo a ideia original, o questionamento, a fagulha que acenderia as posteriores.


Escrito por Giovana Pedrilho

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