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A Trilogia dos Vivos: Comédias sobre o Horror do Cotidiano

“É difícil ser humano” (Canções do Segundo Andar)

Com alguns diretores, podemos reconhecer seus trabalhos com apenas uma cena. Com suas visões de tempo, contexto cultural e estética, os melhores diretores se anunciam com pouco. O diretor sueco Roy Andersson consegue se fazer presente com um único plano.


A “Trilogia dos Vivos” é composta de Canções do Segundo Andar (2000), Vocês, os Vivos (2007) e Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (2014). São três comédias surrealistas que carregam um tom cínico, compostas de curtas vinhetas que acompanham situações corriqueiras, com alguns personagens e histórias recorrentes.

Em Canções do Segundo Andar, um homem queima sua própria livraria para ganhar o dinheiro do seguro enquanto a cidade sofre com um engarrafamento que nunca termina; em Vocês, os Vivos, uma tempestade assola a cidade, arruinando os planos dos cidadãos; em Um Pombo Pousou num Galho, dois vendedores de itens de comédia levam vidas miseráveis em uma cidade que se deteriora.


As narrativas desconexas e esparsas não são nem de perto o foco dos filmes: muitas vezes os personagens não têm nomes ou até personalidades, sendo totalmente veículos para que as situações aconteçam, meramente reagindo a elas. Há um foco muito grande na caracterização das situações, ao invés de pessoas ou locais.

Imagine que você está em uma galeria de pinturas. Uma delas rouba a sua atenção (para nosso exemplo, veja Caçadores na Neve, de Pieter Bruegel); você se posta na frente dela e se desafia a descobrir todos os seus detalhes. Seu olhar atento desliza pela pintura, descobrindo detalhes ocultos, grupos de pessoas independentes, situações e paisagens.


Roy Andersson busca em seu trabalho transmitir essa experiência. O que faz seu estilo de fotografia ser tão único é o comprometimento em deixar o espectador descobrir o que acontece nos planos, e ao mesmo tempo lentamente desenrolar uma história contida no próprio plano.


A fotografia característica de Andersson é inspirada nos trabalhos de pintores ao invés de outros diretores. Ao invés de Fritz Lang, Bergman e Goddard, Andersson se inspira em Pieter Bruegel, Edward Hopper, Andy Warhol e pintores da Nova Objetividade (um movimento artístico surgido na Alemanha a princípios da década de 1920 como reação ao expressionismo, expressando dos absurdos da vida cotidiana).

Um aficionado por pinturas, Andersson constrói todas as suas cenas em estúdios, nunca utilizando locações em suas filmagens. Esse é um processo que faz com que cada vinheta (que no filme pode durar de 20 segundos a minutos) leve meses para ser filmada, necessitando de muita coordenação e uma direção precisa e meticulosa.

A câmera é sempre estática (exceto em algumas poucas exceções), a edição nunca coloca cortes nas cenas e sempre há apenas um ângulo que se pode observar.


Cada cena é filmada com uma pintura em mente. A experiência de se observar uma pintura em um museu ou galeria é o foco. Andersson controla tudo o que aparece na tela para que nossos olhos possam vagar por seus cenários, absorver cada detalhe e cada movimento em seu tempo.

No documentário “Amanhã é Outro Dia”, Andersson diz “Arte é cheia de situações onde as pessoas estão em posições congeladas. Elas nos contam histórias sem dizer nada”. Mesmo com todas as limitações, acompanhar as vinhetas é libertador. Os planos abertos convidam a exploração e a assistir mais de uma vez. Cada vez, descobrimos um detalhe novo, um personagem recorrente no fundo, um local, um som.


E é através das limitações que Andersson encontra sua voz única: ao se conter a filmar em sets, com uma câmera estática, sem cortes e efeitos especiais, os filmes ganham em personalidade, humor e profundidade.


O ceticismo das histórias varia entre comentários sobre a brutalidade do colonialismo, a impessoalidade do capitalismo, a violência contra imigrantes, chegando sempre em demonstrações pungentes do absurdo da vida cotidiana.

A maquiagem e o guarda-roupa são uniformes para todos: tons apagados, faces esbranquiçadas, roupas genéricas e sem qualquer personalidade, dando ênfase às características que unem a humanidade, seus desejos, sonhos e ambições, e a forma com que a vida moderna tende a destruir todas essas coisas.


O visual dos personagens combina bem com a construção dos sets, que são maravilhas de engenharia e imaginação, criados todos à mão e muitas vezes empregando ilusões de ótica (para efeitos de profundidade). As cenas normalmente se passam em lugares fechados, como bares, engarrafamentos, restaurantes, salas, hospitais: os lugares comuns onde a vida se desenrola. Comentando em “Amanhã é Outro Dia”, Andersson diz “Eu acho que é extremamente importante retratar o ser humano como estando em uma sala, que por acaso é o lugar onde se encontra. Essa sala diz muito sobre é seu lugar na terra, a situação onde se encontra”. As pessoas se tornam parte dos lugares, enquanto vivem suas vidas estáticas, inseparáveis, como animais em suas jaulas.


O cotidiano é o grande foco das situações absurdas que acontecem, funcionando como uma lente temática para a comédia. Um dos personagens recorrentes de Vocês, os Vivos é um militar que vaga pela cidade em várias vinhetas, tendo seus planos cancelados ou se desencontrando com pessoas com quem terá uma reunião. Em Canções do Segundo Andar, um imigrante procura um amigo, e é esfaqueado por delinquentes na frente de um ponto de ônibus. Em Um Pombo Pousou Num Galho, o Rei da Suécia para em um bar no seu caminho para a guerra, e na volta, derrotado, entra no mesmo bar para usar o banheiro, que está ocupado.

A comédia surrealista busca demonstrar as formas em que os absurdos da vida moderna passam a ser normalizados por uma rotina que serve para nos desumanizar, padronizar e retirar de seus agentes qualquer semblante de individualidade que ainda resta. É um sistema opressivo que reduz as pessoas às suas qualidades mais básicas, seus instintos e aspirações superficiais.


A Trilogia dos Vivos é um estudo profundo sobre a existência urbana, que mergulha de cabeça nos absurdos do cotidiano, através de um estilo visual que complementa sua mensagem.


Escrito por Fernando Cazelli

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